quarta-feira, 8 de junho de 2016

GRIPE


Foto: Marina Oliveira. Aquiraz, Ceará, janeiro de 2007.

Todo ano, no começo da seca, tem uma gripe, mas as duas últimas foram diferentes. Não pelos sintomas de coriza, dores na cabeça e no corpo, moleza, mas pela fragilidade que me trouxeram. Sempre detestei ficar doente, embora durante muito tempo tenha sido uma forma de manifestar sentimentos e principalmente o atingimento do meu limite físico e emocional, que eu não conseguia ler e muito menos expressar de outra maneira. Como se perceber a existência de limites na vida fosse igual a sentir-se mal e acabasse resultando no adoecimento do corpo.

A gripe atual, que me trouxe uma otite no ouvido direito de brinde, é a que me leva a escrever, como o resfriado do ano passado, ampliou a fragilidade que tem feito parte dos meus dias muito mais do que eu gostaria desde a morte do meu marido. Desde os 12 anos não tinha dor de ouvido e havia esquecido desse mal-estar constante num lugar entre a orelha e o pescoço, e como essa sensação se irradia para os ombros, as costas e a base do crânio. Passei a noite lutando para achar uma posição para a cabeça que não fosse dolorida. Acordei pensando em como a gente só se dá conta de que nosso espírito é “prisioneiro” do corpo quando alguma parte dele nos incomoda. Imediatamente, comecei um novo diálogo com a morte, essa senhora que tem sido minha companheira mais ou menos constante ultimamente.

Tenho uma tia muito querida, em Goiânia, espírita praticante, que me disse há uns meses, quando estivemos juntas, que meu marido deve estar se divertindo muito desde que desencarnou. "Curioso e inteligente como sempre foi, certamente está fazendo descobertas interessantíssimas pelo universo, livre, viajando no tempo e no espaço sem nenhuma restrição!”, afirmou, verdadeiramente animada com a ideia. Na ocasião, achei o comentário consolador de um jeito divertido e completamente inusitado, o que já é algo positivo por si só, nesse contexto de luto.

No show de 70 anos do Gilberto Gil, em 2014, fomos ao Teatro Nacional em Brasília. Na parte mais intimista do espetáculo, só ele, o violão e um holofote branco de iluminação, ressaltando sua fronte bem grisalha, cantava algo parecido com “estou aqui diante da morte, e o que me preocupa não é o que vem depois, mas ter que participar desse momento, só eu e ela.” Lembro de achar engraçada a cena porque Gil mencionava uma vontade de ir ao banheiro naquela hora derradeira, e lembro também de ter tomado uma bronquinha do meu acompanhante por isso, pois ele achou de tremendo mau gosto o número todo e fechou a cara quando achei graça.

Fico pensando se era só uma reação de corintiano supersticioso, que bate na madeira quando ouve o nome do adversário para isolar o azar, o que era bem a cara dele, ou se havia algo mais naquela reação ao número do show. Como alguém que anda pensando nessa “passagem”, como dizia minha avó materna para não pronunciar o nome da própria, com muito mais seriedade e concretude do que eu podia suspeitar na ocasião.

Sei que jamais saberei qual a opção verdadeira e que hoje, do ponto de vista dele, que já fez sua passagem, não faz qualquer diferença. Mas quem fica do lado de cá não consegue resistir a tentar encontrar a resposta mais “provável”. Afinal, eu estive tão perto dela, e sigo sem ter a menor pista do que de fato se passou entre a morte e o meu amor naqueles instantes derradeiros.

E quando o meu corpo me lembra que tem limites e dói ou passa por qualquer tipo de contratempo como uma gripe ou uma otite, a impotência da morte me atinge como um raio.  Me lembra que, por mais que eu tente acomodar essa perda, elaborando ideias e sentimentos de todo tipo, ela aconteceu à minha absoluta revelia. É assim desde que o mundo é mundo e continuará a ser por mais que a tecnologia traga a alguns a ilusão de controlar ou adiar a visita da morte. E quando eu fizer a minha passagem definitiva, ele não estará ao meu lado como eu estive ao dele e, talvez na hora H, isso não faça a menor diferença. Mas pensar nisso enquanto estou doente faz revirar meu coração e atiça os fantasmas que rondam todo recomeço INDESEJADO e inesperado na vida.

Perdida nessas divagações, enquanto espero o antibiótico fazer efeito e restabelecer meu estado normal de saúde e, com ele, diálogos mais serenos com a Sra. Morte e minha perda, penso que morrer talvez seja só deixar de ter limites ou ultrapassá-los de uma vez por todas. E, quando vejo as coisas por esse ângulo, tenho que concordar com a visão animada da minha tia querida sobre a existência atual do meu amor porque, afinal, se havia uma coisa com a qual  ele jamais soube, gostou ou quis lidar foi com limites.

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terça-feira, 24 de maio de 2016

ONDAS


Foto: Ana Flora Caminha.

O luto tem me trazido uma nova compreensão sobre o mar. Nessa travessia, me pego pensando sobre os homens e mulheres do início da era moderna, que embarcavam em navios sem motor, pensando que ao final de toda aquela água encontrariam dragões, ciclopes e monstros de todo tipo, prontos para engoli-los. Acho que tinham razão, pelo menos do ponto de vista psíquico. Pois, no final do mar de sentimentos, fantasmas e lembranças no qual navegamos, sempre existirão seres mitológicos, reais ou não, que nos espreitam como se estivessem a um passo de nos devorar.
Lembro-me bem da sensação de pisar no Atol das Rocas, em Portugal, ponto de onde saíam as caravelas em 1500 – milagres tecnológicos daquela época – para descobrirem e conquistarem terras além-mar. Estive ali em 2006, aproveitando uma viagem a trabalho. A força do vento é impressionante e entendi imediatamente a razão de terem escolhido aquele ponto como partida. Tinha, então, os cabelos compridos e meus cachos voavam por toda parte, como as cobras na cabeça da medusa, que têm vida própria. Imaginar que, do outro lado daquela imensidão, existe terra firme certamente exige uma grande coragem, uma tonelada de confiança e muita paciência, mesmo nos tempos das imagens por satélite e do Google...
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Lançamento em Brasília
Data: 29/09/2018 (Sábado)
Local: Bar Tiborna, CLN 403, Bloco B
Horário: 17H

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quarta-feira, 4 de maio de 2016

TESTEMUNHO



Desde pequena adoro cortar os cabelos. Mamãe contava que, quando tinha três, quatro anos, não podia passar na porta de um salão que pedia para entrar. Talvez por isso tenha tido sempre os cabelos bem curtos até completar uns nove anos, mais ou menos, quando comecei a espaçar um pouco as visitas ao cabeleireiro e aderir à moda do cabelo comprido. Quando sento em frente a todos aqueles espelhos no salão, gosto de me olhar nos olhos, observar os detalhes do rosto e do corpo que saltam à vista nessa hora e, principalmente, acompanhar a transformação que acontece entre a primeira e a última tesourada. Esse ritual sempre me renovou e, de alguma maneira, refletiu um processo interno constante de elaboração de diferentes acontecimentos da vida.

Mas, sábado passado, quando cortava meu cabelo pela terceira vez desde a morte do meu marido, me bateu uma sensação esquisita. Olhava meus cachos caindo no chão e parecia desconhecer a pessoa refletida no espelho, o coração apertado. Ao sair, passando em frente a uma vitrine com vestidos de noiva, da mesma loja onde comprei o meu, deixei as lágrimas caírem. “Ele não vai me ver com meu cabelo novo!!”, gritava uma voz lá dentro, completamente revoltada, como uma parte de mim tem estado permanentemente desde o início de 2016. Não tenho mais o espelho daqueles olhos amorosos para me ver...

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segunda-feira, 11 de abril de 2016

SUPERFÍCIE


Foto: Lago Paranoá, por Marina Oliveira.

Adoro olhar as águas do Lago Paranoá em dias ensolarados. A luz refletida pelas ondas e o vento que vai soprando e mudando a maneira como os raios solares são quebrados e devolvidos para o céu me trazem uma sensação de conexão com a essência da vida. Em noites de lua cheia, amarelada pelo céu seco do cerrado, tenho um sentimento parecido. Poder perceber isso numa manhã de sábado, no meio de um período especialmente turbulento no meu coração, renova em mim a certeza de seguir tendo as raízes profundamente agarradas nesta existência terrena. Ufa! Algo que, em certos momentos, tem parecido um absurdo e, ao mesmo tempo, uma impossibilidade em meio a ondas bravias que têm me balançado junto com meu barco de papel desde a morte do meu marido.

Este ano de 2016, especialmente, destruiu algumas fantasias que eu ainda alimentava na fase anterior desse luto. A mais traiçoeira delas foi acreditar, mesmo que de forma inconsciente, que haveria um corte no tempo, um divisor de águas claro entre este tempo de dor, instabilidade e elaboração e uma nova etapa, sem tempestade, em águas novamente tranquilas. Na verdade, estive o ano passado inteiro como um paciente na UTI, totalmente focada em voltar para o quarto e sair daquele lugar miserável. Mas, quando atingi minha meta e olhei em volta, me dei conta de que o mundo jamais seria o que foi antes. Ele não volta mais e não há como retornar para onde eu REALMENTE queria ir. E o que faço de mim e do tempo longo que ainda tenho para caminhar neste mundo, sem ele?

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domingo, 3 de abril de 2016

POLARIDADE



Foto: Florianópolis, por Fabiany Made.

Há vozes tão profundas dentro de nós que, muitas vezes, se confundem com a nossa própria. Elas carregam um conjunto de valores, maneiras de enxergar a vida, a morte, o masculino e o feminino, o divino, a maternidade, os relacionamentos afetivos em geral, e por aí vai. Mais do que isso elas se confundem com a verdade ABSOLUTA do universo. São produto das nossas experiências mais antigas de infância e adolescência sobre o nosso valor no mundo, mas principalmente para as pessoas que amamos. Criada numa família de polaridades, um lado porra louca e cheio de tragédias e outro absolutamente rígido e com muitas dores guardadas a sete chaves, principalmente dos seus sujeitos, e tendo nascido uma pessoa altamente sensível, acabei hipertrofiando um lado, talvez por medo de acabar repetindo a história do outro, visivelmente mais sofrido. Ou, por simples questão de sobrevivência, escolhi o lado aparentemente mais poderoso. Por fim, criei um monstro – uma polaridade opressora e dominadora cuja força venho tentando reduzir e quem sabe um dia silenciar.

Essa polaridade OPRESSORA não admite os meus sentimentos, nenhum deles, na intensidade que têm dentro de mim desde sempre. Ela decreta que não cabe a tristeza, o medo, a incerteza, a dúvida, a preguiça, nem tampouco o otimismo, o desejo, a alegria, o prazer, a esperança, a leveza, a conexão com a terra e a natureza que me cerca.  Enfim, não cabe nada do que sempre houve em abundância no meu coração. Para o mundo exterior, nunca houve prejuízos. Sempre fui uma pessoa funcional, especialmente nos momentos de maior sofrimento da minha história, de desempenho reconhecido e comprovado. Desde os nove anos mergulhei de cabeça no Catolicismo, uma religião que casava perfeitamente com todo esse arcabouço descrito. E, embora em muitos momentos a minha religião tenha sido a única companheira no sofrimento, ela reforçou em mim alguns dos princípios mais cruéis dessa polaridade – culpa, vigilância permanente, controle e desprezo pelo momento presente, já que esse mundo serve apenas para expiação, além do eterno castigo iminente.

Foi por não suportar mais viver sob o jugo dessa polaridade que, em 2009, sem ter mais qualquer condição de aguentar o espinho no peito acumulado por anos dessa ditadura, que iniciei essa jornada descrita neste espaço virtual. Foram muitas as vitórias e descobertas desse caminho, as mais marcantes delas também registradas. E, em todas elas, havia um contraponto forte, concreto e próximo que me impulsionava adiante – meu marido. Muito antes de eu saber, ele reconheceu a minha essência e me amou por ela e pelo potencial que enxergou. Homem maduro e experiente quando nos conhecemos, escolheu ficar comigo sabendo exatamente o que fazia....

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sexta-feira, 25 de março de 2016

JEQUITIBÁ



Foto: Marina Oliveira.

Há quase quinze anos atrás, quando conheci meu amor, tínhamos mania de brincar de discutir sobre religião. Ele se fazia de agnóstico convicto e, embora filho de uma família profundamente católica, gostava de falar mal dos padres e da igreja. Eu, católica praticante ao cubo, criada dentro da igreja desde os nove anos de idade e ultraparticipativa nos movimentos jovens. Digo “brincar de discutir” porque, no fundo, eu duvidada do radicalismo dele com relação a esse assunto e ele do meu. O tempo mostrou que tínhamos ambos razão, como em quase toda discussão onde o calor do momento e o fundamentalismo das missões não fazem a gente errar a mão nem no tom e nem nos argumentos.

No meu primeiro encontro com a morte, aos 17 anos, quando perdi minha mãe, quase nove anos antes de conhecer meu marido, gostava de ir ao cemitério, sozinha, e ficar na beira do túmulo dela desabafando todo choro e as dúvidas que não tinha coragem de mostrar em casa ou aos amigos. Só nas missas de domingo, ajoelhada depois da comunhão, me permitia desabar como ali. No fundo, pedia perdão, sem saber exatamente por que, a um deus que decidiu assim, certamente por razões perfeitas, me tirar tão cedo a mãe que, afinal, ele mesmo tinha me dado. Permitia-me, apenas, a alegria eufórica da Páscoa em que a promessa da ressurreição – voltar a encontrar em corpo e alma a minha mãezinha – me preenchia da esperança de um dia merecer essa recompensa, obviamente depois do fim do mundo e do juízo final...

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sexta-feira, 11 de março de 2016

MOSAICO



Fotos: Daniela Rojas.

Há sete anos, cansada de me sentir permanentemente dentro de uma panela de pressão, tomei a decisão de, a qualquer custo, encontrar um jeito mais leve de viver. Ao botar o pé na estrada, tinha fantasias diversas sobre os perigos que me aguardavam – possíveis rompimentos com pessoas amadas, abandono do trabalho, do casamento, da cidade, e por aí vai. Mas saí disposta a tudo! No caminho, entretanto, me deparei com desafios muito diferentes dos imaginados e muito mais ordinários do que jamais sonhei.

Um dos primeiros e mais difíceis foi aprender a fazer mosaico. Sim, sempre achei muito bonito esse negócio de, a partir de pequenos pedaços de qualquer material, montar uma outra imagem, maior, mais bonita e harmoniosa do que os cacos originais da qual foi feita. Uma reciclagem artística de materiais, muito interessante.

Mas nunca confiei tanto assim nem nas minhas mãos, nem no meu senso estético, para me aventurar a fazer um mosaico ou qualquer outra atividade artesanal.  Na tentativa desesperada de escapar daquela panela de pressão, entretanto, valia qualquer coisa, até isso! Nas aulas, mal conseguia prestar atenção no que dizia a professora, de tanto barulho que fazia a minha crítica interna. Dizia coisas assim: “Olha em volta para quem está neste curso! Só gente desocupada, velha, frustrada, sem trabalho ou coisa melhor para fazer. É isso mesmo que você quer para você? E blá, blá, blá, blá...”, sempre vociferando, lá de dentro.

Mas, felizmente, nem esse boicote interno violento, nem tantos outro fantasmas que tinha no sótão (e ainda tenho, apesar de mais mansos, devo confessar), foram capazes de mudar minha decisão de escapar dos padrões antigos que me faziam sentir aprisionada na bendita da panela de pressão. Muito tempo e peças depois, feitas por essas maozinhas que teclam agora no computador, tomei um enorme gosto por fazer outros tipos de mosaico, em especial de imagens, espécie de quebra-cabeça dinâmico da própria vida.

Um dos meus favoritos é composto por imagens da minha prática de quase seis anos ininterruptos de yoga. Nesse caso, fica bem mais fácil do que quando tenho que fazer minhas peças artesanais, porque só junto as fotos - tiradas por minha amiga e mestra, sempre que sente vontade - e mando para outra amiga que, com sua sensibilidade e talento, monta o mosaico. Talvez esse processo de produção seja grande parte do aprendizado que me libertou da panela de pressão. A consciência de que o afeto não gera nenhuma obrigação, dívida ou coisa parecida. Por isso, podemos pedir e dar a quem amamos, aceitando o sim e o não, como respostas igualmente válidas, sempre. Mas sabendo que o afeto está acima ou, melhor dizendo, está na base dessa interação, como a terra firme sobre a qual nos movimentamos.

Os diferentes pedaços desse mosaico de posturas e flashes da prática de yoga me lembram hoje que houve uma ESCOLHA pessoal no começo desse caminho, a de NUNCA MAIS voltar àquela panela de pressão. Essa reafirmação torna-se especialmente importante quando, no caminho, caindo do azul, como diria Lulu Santos, a gente encontra com a morte do nosso parceiro de vida, ator fundamental em todos os momentos dessa trajetória. Nos olhos dele, no nosso diálogo aberto e sem meias palavras, eu confirmava cada conquista e onda de descompressão, em direção à LIBERDADE, sentido mais amplo de todo esse processo, certamente.

Ficar sem a presença física dele e seguir caminhando faz a gente duvidar de tudo, mas principalmente de mim mesma. Em algum momento, vem uma armadilha, quase canto de sereia, que faz atribuir todo o valor dessa construção a quem se foi, principalmente quando foi o homem quem partiu. Somos produto da nossa cultura, por mais que tenhamos ganhado consciência, ao longo da vida, da opressão que ela traz para toda e cada uma das mulheres. Ser livre “protegida” pela benção de um marido que “aprova” suas condutas libertárias e até as estimula sempre será mais fácil no mundo em que ainda vivemos do que ser livre simplesmente, sem homem nenhum ao lado.

E, quando o correr da vida, como diria Guimarães Rosa, nos exige performance, desempenho no trabalho, na maternidade, no provimento das necessidades materiais dos nossos filhos, no trânsito tão agressivo, na batalha por conseguir um homem... a panela de pressão vem do além para tentar nos engolir de novo. Parece ficção científica trash, mas para quem conhece bem o funcionamento de um artefato desse tipo e já viveu dentro de uma, e acredito que toda brasileira já teve suas experiências nesse campo, é literalmente a hora do pesadelo.

Felizmente, como eu sempre gosto de dizer, a história não volta atrás NUNCA. E a consciência adquirida em cada passo dado nos lembra que por, mais profundos e transformadores que sejam os nossos encontros na vida, somos nós mesmos quem escolhemos a cada dia o próximo passo. Ter essa noção faz perceber finalmente que hoje, nem meu pé, tamanho 35, cabe dentro dessa panela de pressão. Ufa! Aleluia! Namastê!

A dor de perder o meu amado, a tristeza pelo tempo nesse mundo que não compartilharemos, a saudade do seu corpo, das suas ideias e, principalmente, da sua presença nessa caminhada seguem comigo, mas não me pressionam. Desde que eu não lute contra elas e nem transforme o desejo por um tempo menos intenso emocionalmente em mais uma pressão para recompor todos os campos da minha existência. Esse processo está em curso, naturalmente, e não se parece em nada com subir uma escada, na qual os degraus medem o ponto em que me encontro. Está muito mais para um lago, rio ou mar, cujas correntes se fazem e desfazem o tempo inteiro, mas que mantém uma coerência absoluta com os movimentos da vida e do meu coração – e basta.

PS – Aos meus leitores e leitoras, querid@s, quero dizer que não tenho mais nenhum texto guardado para publicação. Então agora o blog traz o desafio da página em branco para mim. Mas como meu objetivo aqui é ter PRAZER em escrever e compartilhar, não vou deixar a pressão da produção me assustar e nem pautar. Vou seguir fluindo com o tempo disponível para esses escritos e com as palavras que pedirem para serem lançadas nesse espaço cibernético. Afinal, o afeto aqui trocado não gera obrigação de nenhuma das partes...

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