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segunda-feira, 11 de julho de 2016

A MONTANHA E O BAMBU


Conforme declarado anteriormente, sou uma calanga do cerrado naturalmente apartada das montanhas, apesar de capricorniana. Durante muitos anos, me sentia profundamente oprimida por essas formações. Há algum tempo mudei minha impressão. Tudo começou com a postura da montanha, na yoga, aquela mais “bobinha” possível, na qual você fica de pé, com a coluna reta e os braços ao longo do corpo. Nada espetacular. Mas experimente fazê-la como se deve para ver o que é bom!

Primeiro os pés, que precisam ter quatro pontos grudados no chão, com o peso caindo ao mesmo tempo sobre os dedos e os calcanhares. Depois, vem uma leve rotação das coxas, que precisam ficar firmes como pedra, os braços e os dedos da mão também, e os ombros afastados das orelhas e do pescoço, sem esquecer o queixo paralelo ao chão. Você precisa se tornar um grande bloco, inamovível. Sim, porque o teste de uma postura da montanha bem feita é alguém empurrar o seu ombro e você não se mexer. E não vale jogar o corpo para frente fazendo contraforça, tá?

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terça-feira, 28 de junho de 2016

O JACARANDÁ, O BALÃO E SÃO JOÃO


Foto: Marina Oliveira.

Uma das minhas lembranças favoritas de infância são os meus vestidos de festa junina. Minha avó materna, costureira, fazia os mais bonitos do mundo para mim. Teve um, rosa choque com babados brancos, inesquecível. Dentro dele, de tranças e pintinhas na cara, me sentia mais poderosa e bonita que a rainha da Inglaterra. Na dança da quadrilha, então, parecia que meu peito ia explodir de tanto orgulho pela minha performance e pela alegria sincera de participar daquela brincadeira.

Outras festas, como o Carnaval, as baladinhas, os grandes eventos do tipo baile de formatura, festa de casamento etc. nunca foram tão confortáveis para mim quanto o São João. Talvez porque sentisse nelas uma exigência seja de porra louquice, de exuberância, ou de beleza, maquiagem, cabelo, salto alto, etiqueta à mesa, entre outros, que sempre me deixaram tensa demais para simplesmente curtir o momento. Mas, como ouvi dia desses, a festa junina, além de muito brasileira, é altamente DESPRETENSIOSA, uma inocência interiorana, levemente cômica. Mais do que isso, lembra a vida no campo, a colheita do milho e agradece de alguma maneira à natureza pela fartura na mesa. E, como tudo o que é DESPRETENSIOSO na vida, me cai bem e me aconchega o coração!!

Casada com um homem altamente festeiro durante anos, precisei superar meus próprios limites para poder acompanhá-lo nos agitos ou realizá-los na nossa casa. Mas São João sempre foi diferente – uma festa desejada pelos dois na mesma medida e intensidade. Na fogueira, embaixo do céu estrelado e do friozinho gostoso das noites de junho, nos encontrávamos na vontade de festar. Era a nossa tradicional “festa da julina”, como costumava dizer o nosso magriça quando novinho.

Em 2015, não teve São João na nossa casa. Não dava. Olhava o fogão, via as panelas de caldo no fogo e ele rindo, comendo canela com canjica, achando graça de si mesmo pelo excesso, numa jaqueta jeans velha e escura, com os punhos dobrados para fora, como era sua marca fashion registrada, visual tradicional de todas as festas noturnas. Um casaco quase andante de tão usado e do qual sinto uma saudade imensa. Mas felizmente tenho duas irmãs nascidas em junho, a mais nova delas também muito festeira e, em 2016, resolvi retomar, despretensiosamente, essa tradição.

Foi um arraial de aniversário para minha irmã, com poucos convidados, não aquele monte de gente que costumava ocupar todos os espaços da nossa casa sem sala e ir e vir ao longo da nossa festa da julina. Também não teve fogueira porque, no final de 2014, a família ganhou um novo membro, muito levadinho e amado aqui em casa, mas perigoso demais para arriscar uma queimadura num minuto de descuido. Um anjinho que preencheu com sua alegria e carisma um grande espaço de ausência na minha vida e dos meus dois filhos, no ano que passou. Mas houve um lindo casamento na roça até então inédito.

Minha prima, que vive em Florianópolis, tia do anjinho levado, ficou noiva de um rapaz muito querido por todos nós, inclusive por meu falecido marido. Um homem de coração bom, que é a qualidade mais importante em qualquer parceiro no amor. E resolvemos aproveitar a ocasião para surpreendê-los com um singelo e também DESPRETENSIOSO casamento na roça, abençoando a escolha dos dois e dando boas-vindas ao novo integrante do clã.

Fizemos flores de papel crepom durante duas semanas, seguindo as receitas do maravilhoso You Tube, onde se aprende de um tudo neste mundo!! E aproveitamos uma estrutura de madeira do quintal para montar o altar. Um grande amigo da minha irmã, parte importante do nosso suporte emocional nos primeiros e duríssimos dias de luto e agora nosso amadinho também, veio direto do Rio Grande do Sul para nos ajudar com suas habilidades e ferramentas desenvolvidas no melhor estilo Magayver (um herói do seriado Profissão Perigo, para quem não conhece) e sua gargalhada fácil. E decorar a festa, pendurando as bandeiras, que continuarão no quintal até desbotarem. Outra tradição desta casa, criada para satisfazer o nosso magriça, que não gosta até hoje de tirar os enfeites.

No centro do terreiro está o Jacarandá do Cerrado, onde penduramos o balão colorido de São João. Renascido em nosso quintal, depois que limpamos o terreno sem usar máquinas – numa tentativa de resgatar os restos de vegetação dormentes embaixo do capão desmatado que era esse lote quando começamos a construção –, o Jacarandá do Cerrado hoje é mais alto que a própria casa. Por ele, também passaram metros de bandeirolas coloridas para ornar a festa. Foi uma linda noite, com lua, estrelas, afeto e bastante frio.

São sementes DESPRETENSIOSAS de recomeço – que não significam nem ruptura, nem fim e muito menos esquecimento, só passagem para um novo ciclo, no qual as sementes do amor plantado trazem os novos frutos, as novas uniões, os novos descendentes da família e os novos laços de afeto. Mas a força ancestral da terra, que nos sustenta e um dia nos recolhe para repousar eternamente, sustenta nosso caminhar e nos lembra que nascer, amar, morrer e, sim, RECOMEÇAR são processos naturais. Simples, profundos e DESPRETENSIOSOS como a vida e seus ciclos infindáveis de mudança e renovação.

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