Foto: Ana Flora Caminha
Amo conversar, mas tenho apreciado muito o silêncio cheio de sons dos últimos dias. Os passarinhos ao redor da minha casa estão fazendo uma rave, cantando como nunca, o dia inteiro. Como a natureza foi minha maior professora e confidente na minha quarentena pessoal, iniciada com a perda súbita do meu marido e amor, há pouco mais de cinco anos, estou sempre ligada no que ela tem a dizer. Sim, sou do tipo que converso com as plantas e acho que elas me respondem, sem palavras, pelo menos por enquanto (fiquem tranquilos)! Tendo acalmado meu pânico inicial de não dar conta da gestão das tarefas domésticas, pude sair um pouco da atividade insana dos últimos dias de colocar a casa em ordem para passar o inverno, para escutar um pouco mais.
Aí lembrei da minha viagem recente com meus filhos às Cataratas do Iguaçu, no início deste mês de março, e do quanto me impressionou o barulho das pessoas e uma certa insanidade com relação às fotos e selfies, diante de um dos cenários mais imponentes do mundo. Tinha estado ali em 2001, quando ainda se podia ir de bote embaixo da cachoeira principal, e fui tomada na época de profunda adoração, no sentido religioso mesmo da palavra, por aquelas águas em queda livre sobre as rochas. Sempre quis levar meus filhos até lá para que pudessem experimentar essa sensação do silêncio da PAZ interior diante do que é tão maior do que nós. Uma das experiências mais reais de plenitude em mim guardadas.
Mas havia tanta gente, barulhos de helicópteros sobrevoando com turistas em vista panorâmica das águas e flashes infinitos, num volume semelhante ao das Cataratas... que não deu para revisitar aquele lugar dentro de mim. Até porque o nível do rio Iguaçu estava muito baixo e o volume de água nas quedas não chegava a um terço do esperado para essa época do ano. Ainda assim, a natureza segue impressionante, mas os visitantes não se deixam ouvir sua voz porque, em muitos casos, nem prestam atenção, preocupados em reproduzirem a foto postada por não sei quem que bombou de likes no Instagram.
Mas o que tenho pensado, nesses dias de isolamento dos seres humanos, é que a natureza PRECISAVA demais desse respiro. Fomos longe demais em tanta coisa, sem nos darmos conta, por incapacidade ou medo de ouvir o que nos diz o silêncio dentro e fora de nós. Consumo demais, sem necessidade real, barulho demais, movimentação em excesso, foto então... O que será que faz de nós criaturas incapazes de simplesmente apreciar cada coisa no momento em que nos deparamos com ela? E de guardar isso, no coração apenas, onde toda a essência de uma vida se abriga, sempre, quer a gente entenda e aceite isso ou não.
E quando o vírus-ducha nos recolhe às nossas casas, e quem sabe também ao nosso lugar nesse planeta, a natureza toma conta e dá show: no canto dos passarinhos, no ninho ao lado da janela da casa da minha amiga querida, cuja foto ilustra esse post, nos canais de Veneza, no ar mais puro na China, em São Paulo e em todas as outras grandes cidades, finalmente livres da sua atividade insana!
A questão agora é: o que cada um e a sociedade vão fazer desse silêncio cheio de sons?! Os registros das janelas, disparados pelas redes sociais para manter o contato com o outro e mostrar o colapso do nosso modo de vida, mundo afora, vão servir só para reforçar o medo do porvir? Da doença ou da solidão, do resultado das nossas próprias escolhas (ou medo delas), gritando dentro de cada casa em quarentena, quando não se pode fugir de quem nos acompanha, nem do tipo de relação estabelecida com eles? "E depois?", me pergunto. E sei que a melhor resposta virá dos passarinhos e da conexão entre eles e a essência humana.
domingo, 22 de março de 2020
sábado, 21 de março de 2020
DIÁRIO DE QUARENTENA - DIA 2
Estranho amanhecer na mesma cama, casa, lugar, na companhia das mesmas pessoas, e parecer esquisito. Sábado. Dia de ficar em casa mesmo. Mas a quantidade de coisas a aprender e rotinas a refazer entregam a anormalidade de hoje. As mensagens são frenéticas nos grupos de whattsapp, de notícia a meme e playlist, aos convites para participar de conferências nos mais diversos aplicativos. Hoje, no entanto, me chamou a atenção a maneira como tudo isso chegou para os meus filhotes.
O mais novo adora ficar em casa de pijama, dias a fio, sem sair, jogando online com os amigos, em tempos normais. Mas acordou com o "ombrinho caído" às 15h30, quando eu finalmente manejei minhas tarefas domésticas a ponto de conseguir botar comida da mesa. Afinal, estou bem no começo do meu treinamento, iniciado ontem, sob decreto do vírus. A irmã acordou antes e estava decifrando comigo, com a orientação da minha irmã do meio, ao telefone, como separar as roupas sujas e usar a máquina de lavar. Muitas dúvidas, mas ela felizmente estava muito segura e detalhista, como sempre, e respondeu todas elas tim-tim por tim-tim.
O meu pijaminha senta finalmente na mesa e olha para o nada, de cara amarrada. Mesmo com a chegada da adolescência há algum tempo e a "cara de bunda permanente", natural nessa fase da vida, como diz a irmã dele, farejei algo errado. Olhando fixamente para o prato de comida, confessou: "mãe, esse negócio da comida tá me matando". Magro como ele só, tem um paladar dos mais apurados desde pequeno, e a exigência com relação ao arroz com feijão faz com que só goste dessa mistura preparada por muito pouca gente, uma delas, minha querida assistente (felizmente) ou sua mãe, que veio antes dela, de quem falei ontem, que está em casa. Ciente da minha limitação no campo do arroz com feijão, fiquei quieta, pensando em como responder.
A irmã, desde cedo, entre irritada e cooperativa com as tarefas a realizar, seguiu comendo e não reagiu. O que também não me pareceu normal, pois os dois vivem se provocando e implicando mutuamente. Ela também fica muito alterada desde pequena quanto tem fome e acha nada do que goste para comer. E agora não tem jeito, porque só temos nós três para cozinhar e ponto. Aí me dei conta de como essa quarentena está ensinando algo fundamental sobre a vida para os meus filhos. Compensando, inclusive, um dos meus pontos fracos como mãe, confesso, Mais um! Sou muito protetora e mimadora. Um amigo aliás, em vias de se tornar pai pela primeira vez, fica impressionado demais com isso e me diz sempre: "você é muito mãe!", o que só pode significar exatamente o que acabei de dizer e é a mais pura verdade.
Mas ensinar aos filhos o sacrifício necessário em vários momentos da vida faz parte das lições fundamentais para torná-los capazes de enfrentar os desafios, maiores ou menores, e as FRUSTRAÇÕES, que fazem parte da vida de todo ser humano. E olha que ter que comer o que a mãe que não sabe cozinhar prepara só é sofrimento para filhos de uma Patricinha do Lago Sul, como eu, que fique MUUUITO claro! Mas, ainda assim, faz parte do aprendizado deles e meu também, nessa quarentena. Porque eu preciso aceitar que é assim, sem transformar isso em algo de outro mundo, que não é e nem nunca foi.
Então, disse apenas: "Tem que enfrentar o arroz com feijão da mamãe mesmo, para encarar a faxina no banheiro e a pia de louça, né?" e pisquei. Ele riu, daquele jeito só dele, com o olho bem miúdo e ainda assim soltando luz, vinda daquele sorriso iluminado como do pai dele. E eu soube, então, que estaremos bem. E, imediatamente, recebi a confirmação da mais velha que, ao ouvir minha resposta, me lançou um dos seus 1000 olhares, cada um com um significado bem específico e, no caso, com uma mensagem bem clara de apoio. "Verdade" seria o nome desse olhar, se os tivesse catalogado em algum lugar. Terminou o prato e declarou que ia tirar uma hora de folga para depois estender a roupa que está na escala de tarefas que fizemos e penduramos na geladeira ontem. Seguem os ensinamentos do vírus com nome de ducha por aqui.
sexta-feira, 20 de março de 2020
DIÁRIO DE QUARENTENA - DIA 1
Há coisas que deveríamos saber, mas só os eventos irreversíveis nos fazem lembrar. Não é minha primeira quarentena. Estive aqui antes, mas sozinha, porque o meu mundo tinha terminado, enquanto o resto da humanidade seguia na mesma ilusão na qual eu vivia antes da morte que abalou o meu chão particular. Neste 2020, que chegou botando para ferver, pelo menos estou em quarentena na companhia de milhões de pessoas, tão perplexas, incertas, impotentes e amedrontadas como eu, o que, de alguma maneira muito egoísta, é verdade, me consola. Porque ficar de quarentena, enquanto o baile segue sem notarem sua ausência, traz um certo recalque, não vou negar.
Como na minha ficha lá em cima deve estar escrito que eu sou do tipo que, no passeio de ski-bunda nas dunas pede sempre para ser "com emoção", embora eu NUNCA escolha isso nos passeios, a quarentena coincidiu com a necessidade imperativa de buscar novas formas de ganhar o sustento. O que não me torna mais especial do que nenhum dos outros milhões de habitantes do globo, na mesma exata situação. Mas, como meu barco de papel tem feito manobras radicais por sobre ondas havaianas, tenho a audácia de acreditar ser capaz de, ao menos, tentar, com alguma chance de sucesso, surfar nela e viver para contar a história.
E, só para o caso de eu não conseguir, deixo tudo registrado nesse diário de mais uma travessia. Começo contando a história da morte de uma "Patricinha do Lago Sul". No caso, eu, apesar da imensa vergonha que sinto dessa confissão. Acordo hoje sem a menor ideia de como alimentar meus filhos e eu mesma, me debatendo com questões sobre como ligar minha própria máquina de lavar roupa, fazer arroz e feijão e dar faxina no banheiro.
Fui abençoada, ao longo da vida, mesmo nas maiores intempéries de perdas e dificuldades pessoais, com a presença constante de um anjo que entra e sai da minha casa e deixa tudo tão perfeito, que eu nunca tive que aprender a fazer coisas essenciais, repetidas todo dia, sem interrupção, 365 dias por ano, numa casa, para que fique limpa, arrumada e com aquele cheiro delicioso vindo da panela na hora das refeições. Para minha sorte, minha falta de habilidades domésticas e meu berço de ouro não me impediram de ter uma relação de amor com as mulheres que exerceram esse papel de anjo.
E nem o coronavírus, que destruiu a economia mundial e botou em xeque a política e os sistemas de saúde de todo o planeta, pode corroer o valor dessa relação! Ela me salvou, de longe, sem eu pedir, mandando áudios contando onde estão as coisas no meu próprio congelador, e o que fazer com elas para não passar fome em casa, com a dispensa cheia. E ela, que vive dizendo que eu sou muito sabida porque vez ou outra respondo alguma pergunta sobre INSS, direitos ou coisas assim, me deixa maravilhada com o seu saber! E, para minha felicidade e dos meus filhos, mesmo à distância, cuida de nós, como eu sempre tento cuidar dela e da sua família, na medida do que posso. Então, vamos sobreviver à quarentena, cada uma na sua casa, segurando uma na mão da outra, como quando fiquei viúva, depois perdi o emprego e o filho dela foi preso, o pai adoeceu e morreu, e também quando a filha dela se formou em Administração, dia desses, sendo a primeira da família com diploma de curso superior. E, quem sabe quando a vida volte ao normal e ela retorne, a gente possa mostrar a casa inteira e bem cuidada a ela, para que tenha orgulho de nós e de tudo o que aprendemos. É algo a cultivar como meta nessa maratona que só começou.
Como na minha ficha lá em cima deve estar escrito que eu sou do tipo que, no passeio de ski-bunda nas dunas pede sempre para ser "com emoção", embora eu NUNCA escolha isso nos passeios, a quarentena coincidiu com a necessidade imperativa de buscar novas formas de ganhar o sustento. O que não me torna mais especial do que nenhum dos outros milhões de habitantes do globo, na mesma exata situação. Mas, como meu barco de papel tem feito manobras radicais por sobre ondas havaianas, tenho a audácia de acreditar ser capaz de, ao menos, tentar, com alguma chance de sucesso, surfar nela e viver para contar a história.
E, só para o caso de eu não conseguir, deixo tudo registrado nesse diário de mais uma travessia. Começo contando a história da morte de uma "Patricinha do Lago Sul". No caso, eu, apesar da imensa vergonha que sinto dessa confissão. Acordo hoje sem a menor ideia de como alimentar meus filhos e eu mesma, me debatendo com questões sobre como ligar minha própria máquina de lavar roupa, fazer arroz e feijão e dar faxina no banheiro.
Fui abençoada, ao longo da vida, mesmo nas maiores intempéries de perdas e dificuldades pessoais, com a presença constante de um anjo que entra e sai da minha casa e deixa tudo tão perfeito, que eu nunca tive que aprender a fazer coisas essenciais, repetidas todo dia, sem interrupção, 365 dias por ano, numa casa, para que fique limpa, arrumada e com aquele cheiro delicioso vindo da panela na hora das refeições. Para minha sorte, minha falta de habilidades domésticas e meu berço de ouro não me impediram de ter uma relação de amor com as mulheres que exerceram esse papel de anjo.
E nem o coronavírus, que destruiu a economia mundial e botou em xeque a política e os sistemas de saúde de todo o planeta, pode corroer o valor dessa relação! Ela me salvou, de longe, sem eu pedir, mandando áudios contando onde estão as coisas no meu próprio congelador, e o que fazer com elas para não passar fome em casa, com a dispensa cheia. E ela, que vive dizendo que eu sou muito sabida porque vez ou outra respondo alguma pergunta sobre INSS, direitos ou coisas assim, me deixa maravilhada com o seu saber! E, para minha felicidade e dos meus filhos, mesmo à distância, cuida de nós, como eu sempre tento cuidar dela e da sua família, na medida do que posso. Então, vamos sobreviver à quarentena, cada uma na sua casa, segurando uma na mão da outra, como quando fiquei viúva, depois perdi o emprego e o filho dela foi preso, o pai adoeceu e morreu, e também quando a filha dela se formou em Administração, dia desses, sendo a primeira da família com diploma de curso superior. E, quem sabe quando a vida volte ao normal e ela retorne, a gente possa mostrar a casa inteira e bem cuidada a ela, para que tenha orgulho de nós e de tudo o que aprendemos. É algo a cultivar como meta nessa maratona que só começou.
terça-feira, 27 de junho de 2017
MAIS REALIDADE: O SEMPRE NO NUNCA
Foto: Ultra Alliens na Avenida Paulista, por Davi Buarim. Junho de 2017.
Parece um rio, mas é uma avenida.
A Paulista em dia de feriado – fechada para o trânsito dos carros, inundada de
gente circulando – pulsa de vida, de diversidade, de histórias. Pisar nesse
chão pela primeira vez – a passeio, depois da morte do meu marido, na companhia
dos nossos filhos – fez correr em mim um rio de sentimentos, memórias e elaborações.
A Paulicéia Desvairada que, depois da minha Brasília, certamente é a cidade
mais importante na minha história.
Nela, dei os primeiros voos
autônomos da vida adulta, depois de entrar na universidade e, mais tarde,
consolidei projetos pessoais e profissionais importantes. São Paulo é densa,
complexa, nada óbvia. Exige entrega sem preconceito para se deixar conhecer.
Mas, quando a gente deixa, surpreende com sua beleza misturada, contida e
derramada. As contradições da grana, a força da rua e do concreto e uma efervescência
insuspeita.
Logo na chegada ao hotel, recebemos
como presente de boas-vindas uma lata de cerveja comemorativa da parada do
orgulho gay, que aconteceu no domingo seguinte à nossa visita. Entramos no táxi,
logo depois, e o motorista mais velho mostra um entendimento completamente
diverso do mesmo evento: “Domingo a Paulista vai estar fechada só para os gays,
viu?”. Quase pergunto se será preciso apresentar uma carteirinha de
identificação para passear por lá, mas desisto e só tomo nota.
Por algum motivo, não consigo
chamar a Consolação, para onde quero ir, de outro nome que não Constelação.
Mais uma das minhas confusões habituais, motivo de riso e diversão na nossa
família, e que continua. Alguns passos na Paulista, a partir da Consolação, e
tropeçamos num grupo de “Ultra Alliens” invadindo a área com um som temático,
que tem como característica principal o vocalista produzindo com as mãos
interferências numa antena de rádio, amplificadas pelo sistema de som, e
acompanhado de outros músicos vestidos de macacão branco tipo NASA e máscaras de
extraterrestre. Um pouco adiante, Elvis Presley evangélico, de afinação
duvidosa, cantando em inglês, estranhamente um repertório nada Elvis, e
abençoando os passantes, chamando para fotos os cadeirantes ou pessoas com
alguma deficiência.
Mais alguns passos, e chegamos ao
forró, com direito ao mano de camisa do Coringão dançando com as minas, em
passos um pouco heterodoxos. Um homem
com um boneco de marionete que toca um piano, em miniatura, chama a atenção do
meu filho mais novo. Mais cliques.
Continuando a caminhada, ouvimos gritos
e imagino uma manifestação “Fora Temer!”. Nada. Chegamos mais perto para
descobrir o motivo do frisson. Pergunta daqui e dali e eram duas celebridades
do YouTube, dando sopa, no meio da
Paulista e fazendo a gravação de um programa de televisão a cabo. O rosto do
meu filho se ilumina. “O Ted e o Muca
Muriçoca estão aí”, grita animado. E eu, na mesma. É a idade! Ele queria ver os
dois de perto, tirar foto. Um homem dá a dica: “Você é pequeno, entra por baixo
do pessoal, quando chegar no segurança, chora que eles te pegam!” Ele pensou e
até tentou se enfiar no meio, mas já não é tão pequeno assim. Uma mulher vê e
se oferece para ajudar a colocá-lo nas costas da minha irmã, a mais alta e
forte do nosso grupo. Somos três mulheres – eu, minha filha mais velha e a
desconhecida – fazendo um guindaste para ele subir no cangote da tia. Todas
juntas, em trabalho de equipe, nos aproximamos do círculo, apoiando as costas
dele por trás, para evitar uma queda e tentar ajudar um pouco a minha irmã que
está na base com todo o peso. Deu certo! Registro feito. Saio chorando de rir
pelo inusitado da cena e pelo colorido da interação com desconhecidos em meio à
Paulista. Não tem preço.
De noite, tem volta à cantina
italiana onde pedi para executarem “Io
que amo solo te” na nossa mesa, anos atrás, com direito a dedicatória ao
meu amor, mais vermelho que pimentão e completamente avesso a esse tipo de
exposição. Meu coração aperta de alegria por trazer a nossa duplinha ali, como
tínhamos planejado tantas vezes, junto com saudade, tristeza e a consciência
que o tempo traz de que ele não vem mesmo. Estar ali, assim, em três dimensões temporais
simultâneas – o passado, o hoje e o adiante – e só um coração, deve ter
transformado minha expressão. “Pode chorar mãe, tudo bem”, dizem os dois
“ourinhos” que ele me deixou, quase em coro, me autorizando a botar para fora o
que me apertava o peito. E as lágrimas caíram.
Terá sido má ideia ir ali?! E
agora? Como encontro o conforto neste lugar para conseguir jantar? Aí, entram
os músicos, senhores de terno de ar muito grave, empunhando um violão, uma
sanfona e um violino, e começam a tocar. O coração acelera e, ao mesmo tempo,
acalma. Uma frase do livro “A Elegância do Ouriço” de Muriel Barbury, me vem à
cabeça e vai acomodando as abóboras na carroça.
No livro, a menina perde uma
grande amiga, tipo mãe, e ao escutar uma música (sempre ela!) sente algo que
descreve como “um sempre no nunca”. Então é isso?! São Paulo, a estação da Luz,
o mercadão, um sanduíche de mortadela, nossos filhos e tantos outros momentos
adiante serão assim. O que não significa nenhum tipo de incapacidade e nem
retira o meu direito de gozar da alegria e do prazer que também seguirão
fazendo parte dessas experiências e desses lugares. Mas pede (ou será exige?)
que eu ACEITE e não me ASSUSTE com os ritmos diferentes que podem agitar meu
coração aqui e ali, onde ele vai sempre estar presente, sem nunca mais voltar.
terça-feira, 28 de março de 2017
ROBÔS
Foto: Marina Oliveira.
Meu filho mais novo adora
tecnologia. Aos 11 anos, acompanha tudo o que acontece nesse campo via YouTube, assim como todos da sua
geração, interessa-se até mesmo pelas grandes negociações, compras e vendas
desse mercado, me atualizando sempre sobre as cifras de cada uma das
movimentações milionárias. No carro, um dia, me contou que havia assistido à
palestra de um dos grandes executivos do Google
afirmando que, em 2049, a inteligência artificial irá superar a humana. Eu
fiquei bem séria e perguntei: “Será mesmo verdade?”. “Claro, mãe, pode
contar!”, respondeu sorrindo e emendou: “Você ficou triste?”. “Claro que
fiquei! Como assim, quer dizer que os robôs vão dominar o mundo?!”....
GOSTOU?! #debaixodosipes
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Livros por encomenda no Brasil: Martins Fontes
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segunda-feira, 6 de março de 2017
CARNAVAL
Foto: Margarida Cristiana Napoleão Rocha, tirada na Tailândia, no Carnaval de 2017.
Sempre me intrigou o fato da data
desta festividade ser determinada pela primeira lua cheia do ano. Para quem não
sabe, o período de Carnaval muda ao sabor da lua cheia, e de quando ela resolve
dar as caras no céu, em janeiro. Nunca me pareceu muito lógico, aliás, que uma época
marcada pelo relaxamento das normas sociais pudesse ser uma festa cristã,
inaugurando a quaresma, tempo de penitência. Afora essa aparente contradição
entre as coisas do corpo, pagãs em sua essência, e do espírito, ligadas à
religião, que sempre observei com relação à folia de momo, comecei o feriado
escaldada da experiência dos dois últimos carnavais, de 2015 e de 2016,
absolutamente tenebrosos. Estar de luto em meio à alegria eufórica da multidão
é profundamente angustiante, parece que multiplica em muito a força e o peso de
qualquer dor...
GOSTOU?! #debaixodosipes
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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
TELHADO DE GRAMA
Andei sumida, sem escrever,
matutando e tentando fazer minhas pazes com o tempo. Nesse período, algumas
imagens me marcaram. Um barco sem motor atracado próximo da praia em João
Pessoa, sendo jogado em todas as direções pelas ondas, e ao sabor delas. A
estrada que corta os morros de Araguari, Minas Gerais, com seu traçado curvo,
pista simples e muito movimento de caminhão. E o mato que tomou conta do meu
querido e problemático telhado de grama, desde o final do ano passado.
Os passarinhos, uma das coisas
mais lindas desse pedaço da casa, trouxeram ervas daninhas de vários tipos e
fizeram uma plantação delas por lá. Ficou impossível retomar esse espaço, sem
refazer completamente o bendito. Ah! Os baldes móveis no chão do meu quarto
para aparar as goteiras dinâmicas da estação de chuvas também é outra das imagens
marcantes desses meses.
Como diz meu filho mais novo, não
estou falando coisa com coisa. Mas tenham um pouco de paciência comigo e vão
entender o que tem o telhado de grama a ver com minhas pazes com o tempo. Hoje
recebi uma mensagem do meu amigo português, poesia e filosofia puras, um
presente, sempre, essa nossa correspondência. No Natal de 2016, soube que ele
havia perdido a netinha de apenas três anos, vítima de um estúpido acidente
doméstico. Desde então, ele não havia dado sinal de vida, apesar das mensagens
enviadas.
Mas, para minha felicidade, ele
retomou a comunicação com o mundo e me deu a honra de receber notícias, num
texto sobre o qual falava principalmente sobre o TEMPO. Esse que não passa e anda
feito caracol, segundo ele, embora eu ache que está mais para lesma (não sei se
elas existem em Portugal), quando a gente está no fundo de um alçapão,
esperando resgate, sabe-se lá QUANDO, vindo sabe-se lá de onde. E assim é o
tempo das grandes perdas, do luto, das separações irrevogáveis, da doença,
enfim, de todos esses eventos dolorosos e, sim, normais na vida por aqui.
Mas, estranhamente, esse mesmo
tempo voa para o mundo e todos os que nos rodeiam, nele acontecem milhares de
coisas boas e ruins, e a gente, no tempo do alçapão, sente que está devendo às
pessoas e a nós mesmos, porque todo tempo é para ser vivido, aproveitado,
sorvido até a última gota porque não volta mais, mas a gente simplesmente não
consegue e tem que aceitar isso também, além de tantas outras coisas indigestas.
Do lado de cá do Atlântico, essa
reflexão me atingiu como um raio. Como se, de repente, o sentido das imagens
que me marcaram, nesses meses de silêncio, e os sentimentos que hoje tomam
conta do meu coração, ficassem claros. Dois anos se passaram desde que caí no
alçapão. Lá dentro, travei batalhas violentas com o TEMPO - o que ficou para
trás sem possibilidade de retorno, o que foi absurdamente negado ao meu marido
e a mim tão cedo na nossa história, o que está pela frente e parecia uma
eternidade intragável, quase um castigo, lá do fundo do alçapão. Também o meu
tempo, 42 anos completos, sem a menor ideia do próximo passo, sem o frescor e a
inocência dos 26 anos, quando conheci meu amor.
O tempo da IMPOTÊNCIA, a mesma do
barquinho em João Pessoa, do carro na estrada em Araguari atrás de uma fila
enorme de caminhões, do mato que tomou conta do meu telhado e da goteira no meu
quarto. Um tempo que, embora seja o meu maior patrimônio neste mundo, não me
pertence completamente porque sou obrigada a compartilhá-lo com circunstâncias
alheias à minha vontade. Pior, um tempo que não dá garantias a ninguém, nem
consulta sobre o momento mais adequado para nada.
Mas é também o tempo que traz um
sorriso olho no olho, que faz o coração pulsar novamente pela VIDA de aqui e de
AGORA, meio desconfiado e tonto, com certeza, mas com um interesse renovado no
porvir e não apenas no que se foi. E, logo depois, o mesmo tempo lembra que não
existe portal de retorno ao que se perdeu e que não dá para roubar, fingindo
que aceitou a perda e buscando o tempo inteiro recompor o que não existe mais. À
revelia da nossa mais profunda vontade de chegar ao famoso FINAL FELIZ, o tempo
mostra de forma contundente que o novo exige paciência, humildade, perseverança
e criatividade para ser construído, dia-a-dia, até um desfecho provavelmente
diferente do que nós esperamos.
Traz também presentes que já não
esperávamos mais receber a essa altura da vida, como o pai que eu sempre quis e
que agora, depois de tantos percalços, TENHO. Quem diria? Não que ele não
estivesse estado sempre ao meu lado, mas antes havia barreiras dos dois lados a
serem vencidas para que pudéssemos nos aceitar assim, sem reservas, como hoje.
E só o TEMPO pode abençoar alguém com uma alegria desse porte, junta, misturada
e intimamente relacionada com as toneladas de dúvidas e perplexidades dos
últimos anos.
Fazer as pazes com o tempo talvez
seja ACEITAR que o TEMPO do TEMPO é o TEMPO exato, nem antes, nem depois, só na
hora. Isso não garante ausência de dor ou novas perdas no horizonte, mas alivia
o sofrimento porque se para de querer “resolver” a vida por entender que ela
simplesmente não tem solução e nem chegada, só fluxo contínuo. É o que a casa
oferece.
Voltando ao telhado de grama,
decidir, ainda em meio a um futuro profissional indefinido, refazê-lo agora
pode ser visto por alguns como uma temeridade. Mas foi isso que fiz e não me
arrependi. Ficou lindo! Preservou o espírito de antes, com uma cara NOVA, minha,
de HOJE, saindo lentamente do alçapão, sem resgate e pelas próprias pernas, mas
com uma torcida igual a do Flamengo, em número, e a do Corinthians, em
entusiasmo e fidelidade, me dando força! Morrendo de medo de ser subitamente
jogada novamente lá no fundo, mas certa de que o TEMPO está do meu lado porque
finalmente estamos em paz.
PS - Este texto eu dedico com todo amor ao meu amigo português e à
sua filha, que não conheço, mas que me foi descrita como uma verdadeira
guerreira Samurai, para que se lembrem, lá de onde o tempo não passa NUNCA, que
ele trabalha por nós sempre, mesmo quando parece o contrário.
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