quarta-feira, 25 de março de 2020

DIÁRIO DE QUARENTENA - DIA 6

                       Registro histórico, encontro de amigas.

Por onde começar quando algo parece interminável? É a reflexão do dia. Hoje acertei a mão no almoço, graças à Rita Lobo, minha guia, minha luz para pilotar as panelas de agora em diante. Apesar disso, não consegui tirar a minha filha mais velha de uma tristeza profunda (a maior registrada até aqui) e nem o mais novo da sua irritação com estudos a distância. "Se é para ficar fazendo dever em casa, preferia ir pra escola", declarou. Mas minha parte com relação à alimentação dos filhotes foi realizada, botei comida descente na mesa, em horário compatível com uma refeição chamada almoço! E nada no mundo mundo me alivia mais do que ter certeza de que NÃO HÁ NADA MAIS QUE EU POSSA FAZER a respeito. Agora pertence a cada um lidar com o turbilhão dentro, causado pela insegurança fora, e a falta de previsibilidade sobre quando termina a emergência.

A angústia do "até quando?" talvez seja o que tenha nos igualado e, por isso mesmo, nos tornado mais humanos nesse tempo de exceção. Guardadas as devidas proporções entre o tamanho do impacto no bolso e no planejamento de cada um, e na rede de proteção disponível para enfrentar a calamidade, ficamos no mesmo barco ou nos sentimos assim, enfim. De repente, vem uma clareza sobre a falsidade da ideia de uma pessoa pode estar bem pra valer, enquanto outras morrem de fome, violência, negligência, omissão, ataques de ódio e... coronavírus!

Precisou esse bichinho microscópico saído da China para dissipar essa névoa maluca que nos hipnotizou, turvando nosso entendimento sobre a importância da verdadeira política para a coletividade, aquela com P maiúsculo cujo significado é serviço e pactuação para o bem de todos, sobre o valor capital do diálogo sem desqualificação do outro, sobre a escuta generosa do "outro lado",  e o que se passa com quem está num sapato aparentemente diferente do nosso - só que não -, como nos esfrega na cara o corona.

Quanto mais iguais, mais humanos, em todos os matizes dessa palavra que vai dos mais nobres aos mais mesquinhos comportamentos e TODOS, sem exceção, fazem parte de cada um de nós, assim como da coletividade. Os preconceitos caem por terra e algumas verdades negadas começam a gritar e fica mais difícil fechá-las de novo em algum porão....Embora haja os que preferem a morte agarrados à mentira do que admitir erros e fracassos.

Um exemplo: a tecnologia. As pessoas mais velhas a temem e muitas vezes a desprezam, culpando-a pela "degeneração da sociedade", os mais jovens a amam e constroem todos os seus relacionamentos, de diversão ao ganha-pão, em torno dela. E, quando a emergência nos iguala, enxergamos claramente que a tecnologia não pode ter culpa, ela não tem intenção, está aí para nosso uso. E somos nós, humanos, mais uma vez, nas nossas ambiguidade e negação, que a utilizamos para disseminar o ódio, a desinformação, a superficialidade e o consumismo, de pessoas e relacionamentos, inclusive. Mas, em meio ao vírus-ducha, percebemos todo o seu potencial como instrumento de manutenção de vínculos e aproximação de pessoas, como possibilidade de trazer alento, soluções concretas e fundamentais para o avanço da humanidade. Como é da minha natureza, escolho olhar o lado feio disso tudo bem no olho e, sustentando a mirada, observar o que dele vive em mim, escolhendo, cada dia, o outro lado nesse começo interminável, no qual o mundo está mergulhado.

PS - Não pude resistir a postar o registro histórico de quatro das minhas amigas-irmãs em reunião por vídeo no celular ontem à noite. Pela ordem, uma delas fazendo o caçula ninar, outra (sem óculos, né?) espremendo a vista para ver mais pertinho o pessoal do outro lado (imagino), a terceira com esse sorriso meio de lado tão dela, quando algo que vê toca seu coração, e a quarta, guerreira danada com uma baixinha em casa que é um furacão, deixando a faxina quase eterna nessa situação de lado, para encontrar as amigas. O próximo encontro eu não perco, visse?

terça-feira, 24 de março de 2020

DIÁRIO DE QUARENTENA - DIAS 4 E 5

                                          Vista da Yoga na minha varanda

Pois é, o dia quatro me derrubou. Não deu para escrever porque fui atropelada pelas minhas dificuldades em lidar com o momento. Pensa que porque atravessou o oceano vai conseguir cruzar o rio?! Errou. A vida é campeã de trolagem, como dizem os meus filhos. Então, precisei de mais tempo para deixar o ontem vazar e me dei licença para escrever um diário que seria, na verdade, um quarentaeoitoário, se essa palavra existisse, claro! Enfim, sobre o dia quatro, acordei atrasada numa segunda-feira, em teletrabalho e com todas as funções domésticas às quais não estou habituada por fazer. Até aí nada, isso acontece até sem quarentena.

Mas ontem bateu muito diferente, como uma pedrinha jogada no lago, gerando pequenas ondas ao redor de angústia fina. E esse momento de relacionamentos quase integralmente virtuais não ajudou. Invisibilidade sempre me assustou, sobretudo quando sinto ser eu a alma penada. Chame de exibicionismo, se quiser, deve ter um pouco disso mesmo, ou de complexo de primadona - meu padrinho me chamava "Cigana Sandra Rosa Madalena" quando eu tinha apenas quatro anos. Vejam só! Mas a falta do espelho do outro me desnorteia.

Seja o silêncio cheio de formalidades de um amigo, depois de uma briga, preenchido pelas fantasias mais loucas que vivem em mim sobre seus significados. Ou a relação de trabalho que vira uma espécie de incômodo por inexistência de diálogo cara a cara, com algum grau de franqueza e uma via de ida e outra de volta pelo menos. Me magoa não poder dizer seja o que for de frente e não conseguir me perceber nos olhos de quem me vê. Vou virando um fantasma, perambulando, sem saber por onde e nem porquê. Necessito sentido para não perder a raiz.

Felizmente tenho meus dois filhotes tão amados ao meu lado, mas aí enxergar neles minha incapacidade de cozinhar algo que preste dói mais que tudo e foi o tiro de misericórdia de ontem. Eu sei que no dia 2 destes registros jurei aprender a não ser uma mãe assim. Mas, tenham paciência, vinte e dois anos não se mudam em cinco dias... nem que sejam em tempos de vírus-ducha. Aliás, sempre foi um motivo de discussão recorrente entre meu marido e eu essa minha coisa de não sossegar, de não aproveitar as coisas, como quando esses filhotes não respondem ao meu olhar com alguma coisa que me diga: "tudo bem!". E isso é uma fantasia de onipotência, eu sei, mas a maternidade necessita um pouco dessa capa para nos fazer acreditar que podemos dar conta do trabalho, senão fica pesado demais, em muitos momentos.

Mas, hoje cedo, uma amiga me perguntou pelo post de ontem, num grupo de irmãs que temos, com conexões em Brasília, João Pessoa e Madri. Chique, né? E eu respondi dizendo que tinha sido "atropelada" no dia 4. Daí veio uma avalanche de dicas, receitas, textos, consolos, meias-broncas, vídeos de exercícios e uma série de ponderações sobre o meu nível de exigência em relação a mim mesma - sempre. E, logo depois, chega assim, na hora exata, a mensagem inesperada de uma pessoa tão querida trazida pelo meu encontro com o choro, entre tantas que essa música, que é também uma roda de afetos, me trouxe. E dizia:

"Aqui estamos, meu amor e eu, morrendo  de  saudade dos filhos e netos que sumiram. Um lado meu  entende, mas o outro, não, e aprendendo a CONVIVER 24 horas por dia porque não tem nada de "vou dar um pulinho ali". Sabe do que tenho mais saudade? Dos meus meninos nessa idade linda da adolescência. Sempre disse que eles foram excepcionais, assim como são adultos maravilhosos (e são mesmo, porque convivo com os dois!). Marina querida, você é uma inspiração. Queria, neste tempo de "corona", escrever sobre meus filhos e pude brevemente fazê-lo. Você foi o gancho. Obrigada e um beijo".

E esse amor, jorrando pela tela do celular, me trouxe de volta à raiz e ao sentido de tudo. Então, não é tão ruim assim a gente ter essa sensação selvagem de mãe em estado de ameaça iminente pela sua incapacidade de alimentar os filhotes, mesmo que eles tenham 22 e 14 anos e não estejam passando nenhum tipo de privação. E o sentido não está no eventual silêncio ou invisibilidade nos quais caímos vez por outra, por alguma razão que não nos pertence, mas no afeto que espelha nosso valor como ser humano, e a certeza de que, mesmo isolados, jamais estamos sós quando amamos.


domingo, 22 de março de 2020

DIÁRIO DE QUARENTENA - DIA 3

                                          Foto: Ana Flora Caminha

Amo conversar, mas tenho apreciado muito o silêncio cheio de sons dos últimos dias.  Os passarinhos ao redor da minha casa estão fazendo uma rave, cantando como nunca, o dia inteiro. Como a natureza foi minha maior professora e confidente na minha quarentena pessoal, iniciada com a perda súbita do meu marido e amor, há pouco mais de cinco anos, estou sempre ligada no que ela tem a dizer. Sim, sou do tipo que converso com as plantas e acho que elas me respondem, sem palavras, pelo menos por enquanto (fiquem tranquilos)! Tendo acalmado meu pânico inicial de não dar conta da gestão das tarefas domésticas, pude sair um pouco da atividade insana dos últimos dias de colocar a casa em ordem para passar o inverno, para escutar um pouco mais.

Aí lembrei da minha viagem recente com meus filhos às Cataratas do Iguaçu, no início deste mês de março, e do quanto me impressionou o barulho das pessoas e uma certa insanidade com relação às fotos e selfies, diante de um dos cenários mais imponentes do mundo. Tinha estado ali em 2001, quando ainda se podia ir de bote embaixo da cachoeira principal, e fui tomada na época de profunda adoração, no sentido religioso mesmo da palavra, por aquelas águas em queda livre sobre as rochas. Sempre quis levar meus filhos até lá para que pudessem experimentar essa sensação do silêncio da PAZ interior diante do que é tão maior do que nós. Uma das experiências mais reais de plenitude em mim guardadas.

Mas havia tanta gente, barulhos de helicópteros sobrevoando com turistas em vista panorâmica das águas e flashes infinitos, num volume semelhante ao das Cataratas... que não deu para revisitar aquele lugar dentro de mim. Até porque o nível do rio Iguaçu estava muito baixo e o volume de água nas quedas não chegava a um terço do esperado para essa época do ano. Ainda assim, a natureza segue impressionante, mas os visitantes não se deixam ouvir sua voz porque, em muitos casos, nem prestam atenção, preocupados em reproduzirem a foto postada por não sei quem que bombou de likes no Instagram.

Mas o que tenho pensado, nesses dias de isolamento dos seres humanos, é que a natureza PRECISAVA demais desse respiro. Fomos longe demais em tanta coisa, sem nos darmos conta, por incapacidade ou medo de ouvir o que nos diz o silêncio dentro e fora de nós. Consumo demais, sem necessidade real, barulho demais, movimentação em excesso, foto então... O que será que faz de nós criaturas incapazes de simplesmente apreciar cada coisa no momento em que nos deparamos com ela? E de guardar isso, no coração apenas, onde toda a essência de uma vida se abriga, sempre, quer a gente entenda e aceite isso ou não.

E quando o vírus-ducha nos recolhe às nossas casas, e quem sabe também ao nosso lugar nesse planeta, a natureza toma conta e dá show: no canto dos passarinhos, no ninho ao lado da janela da casa da minha amiga querida, cuja foto ilustra esse post, nos canais de Veneza, no ar mais puro na China, em São Paulo e em todas as outras grandes cidades, finalmente livres da sua atividade insana!

A questão agora é: o que cada um e a sociedade vão fazer desse silêncio cheio de sons?! Os registros das janelas, disparados pelas redes sociais para manter o contato com o outro e mostrar o colapso do nosso modo de vida, mundo afora, vão servir só para reforçar o medo do porvir? Da doença ou da solidão, do resultado das nossas próprias escolhas (ou medo delas), gritando dentro de cada casa em quarentena, quando não se pode fugir de quem nos acompanha, nem do tipo de relação estabelecida com eles? "E depois?", me pergunto. E sei que a melhor resposta virá dos passarinhos e da conexão entre eles e a essência humana.

sábado, 21 de março de 2020

DIÁRIO DE QUARENTENA - DIA 2


Estranho amanhecer na mesma cama, casa, lugar, na companhia das mesmas pessoas, e parecer esquisito. Sábado. Dia de ficar em casa mesmo. Mas a quantidade de coisas a aprender e rotinas a refazer entregam a anormalidade de hoje. As mensagens são frenéticas nos grupos de whattsapp, de notícia a meme e playlist, aos convites para participar de conferências nos mais diversos aplicativos. Hoje, no entanto, me chamou a atenção a maneira como tudo isso chegou para os meus filhotes.

O mais novo adora ficar em casa de pijama, dias a fio, sem sair, jogando online com os amigos, em tempos normais. Mas acordou com o "ombrinho caído" às 15h30, quando eu finalmente manejei minhas tarefas domésticas a ponto de conseguir botar comida da mesa. Afinal, estou bem no começo do meu treinamento, iniciado ontem, sob decreto do vírus. A irmã acordou antes e estava decifrando comigo, com a orientação da minha irmã do meio, ao telefone, como separar as roupas sujas e usar a máquina de lavar. Muitas dúvidas, mas ela felizmente estava muito segura e detalhista, como sempre, e respondeu todas elas tim-tim por tim-tim.

O meu pijaminha senta finalmente na mesa e olha para o nada, de cara amarrada. Mesmo com a chegada da adolescência há algum tempo e a "cara de bunda permanente", natural nessa fase da vida, como diz a irmã dele, farejei algo errado. Olhando fixamente para o prato de comida, confessou: "mãe, esse negócio da comida tá me matando". Magro como ele só, tem um paladar dos mais apurados desde pequeno, e a exigência com relação ao arroz com feijão faz com que só goste dessa mistura preparada por muito pouca gente, uma delas, minha querida assistente (felizmente) ou sua mãe, que veio antes dela, de quem falei ontem, que está em casa. Ciente da minha limitação no campo do arroz com feijão, fiquei quieta, pensando em como responder.

A irmã, desde cedo, entre irritada e cooperativa com as tarefas a realizar, seguiu comendo e não reagiu. O que também não me pareceu normal, pois os dois vivem se provocando e implicando mutuamente. Ela também fica muito alterada desde pequena quanto tem fome e acha nada do que goste para comer. E agora não tem jeito, porque só temos nós três para cozinhar e ponto. Aí me dei conta de como essa quarentena está ensinando algo fundamental sobre a vida para os meus filhos. Compensando, inclusive, um dos meus pontos fracos como mãe, confesso, Mais um! Sou muito protetora e mimadora. Um amigo aliás, em vias de se tornar pai pela primeira vez, fica impressionado demais com isso e me diz sempre: "você é muito mãe!", o que só pode significar exatamente o que acabei de dizer e é a mais pura verdade.

Mas ensinar aos filhos o sacrifício necessário em vários momentos da vida faz parte das lições fundamentais para torná-los capazes de enfrentar os desafios, maiores ou menores, e as FRUSTRAÇÕES, que fazem parte da vida de todo ser humano. E olha que ter que comer o que a mãe que não sabe cozinhar prepara só é sofrimento para filhos de uma Patricinha do Lago Sul, como eu, que fique MUUUITO claro! Mas, ainda assim, faz parte do aprendizado deles e meu também, nessa quarentena. Porque eu preciso aceitar que é assim, sem transformar isso em algo de outro mundo, que não é e nem nunca foi.

Então, disse apenas: "Tem que enfrentar o arroz com feijão da mamãe mesmo, para encarar a faxina no banheiro e a pia de louça, né?" e pisquei. Ele riu, daquele jeito só dele, com o olho bem miúdo e ainda assim soltando luz, vinda daquele sorriso iluminado como do pai dele. E eu soube, então, que estaremos bem. E, imediatamente, recebi a confirmação da mais velha que, ao ouvir minha resposta, me lançou um dos seus 1000 olhares, cada um com um significado bem específico e, no caso, com uma mensagem bem clara de apoio. "Verdade" seria o nome desse olhar, se os tivesse catalogado em algum lugar. Terminou o prato e declarou que ia tirar uma hora de folga para depois estender a roupa que está na escala de tarefas que fizemos e penduramos na geladeira ontem. Seguem os ensinamentos do vírus com nome de ducha por aqui.

sexta-feira, 20 de março de 2020

DIÁRIO DE QUARENTENA - DIA 1

Há coisas que deveríamos saber, mas só os eventos irreversíveis nos fazem lembrar. Não é minha primeira quarentena. Estive aqui antes, mas sozinha, porque o meu mundo tinha terminado, enquanto o resto da humanidade seguia na mesma ilusão na qual eu vivia antes da morte que abalou o meu chão particular. Neste 2020, que chegou botando para ferver, pelo menos estou em quarentena na companhia de milhões de pessoas, tão perplexas, incertas, impotentes e amedrontadas como eu, o que, de alguma maneira muito egoísta, é verdade, me consola. Porque ficar de quarentena, enquanto o baile segue sem notarem sua ausência, traz um certo recalque, não vou negar.

Como na minha ficha lá em cima deve estar escrito que eu sou do tipo que, no passeio de ski-bunda nas dunas pede sempre para ser "com emoção", embora eu NUNCA escolha isso nos passeios, a quarentena coincidiu com a necessidade imperativa de buscar novas formas de ganhar o sustento. O que não me torna mais especial do que nenhum dos outros milhões de habitantes do globo, na mesma exata situação. Mas, como meu barco de papel tem feito manobras radicais por sobre ondas havaianas, tenho a audácia de acreditar ser capaz de, ao menos, tentar, com alguma chance de sucesso, surfar nela e viver para contar a história.

E, só para o caso de eu não conseguir, deixo tudo registrado nesse diário de mais uma travessia. Começo contando a história da morte de uma "Patricinha do Lago Sul". No caso, eu, apesar da imensa vergonha que sinto dessa confissão. Acordo hoje sem a menor ideia de como alimentar meus filhos e eu mesma, me debatendo com questões sobre como ligar minha própria máquina de lavar roupa, fazer arroz e feijão e dar faxina no banheiro.

Fui abençoada, ao longo da vida, mesmo nas maiores intempéries de perdas e dificuldades pessoais, com a presença constante de um anjo que entra e sai da minha casa e deixa tudo tão perfeito, que eu nunca tive que aprender a fazer coisas essenciais, repetidas todo dia, sem interrupção, 365 dias por ano, numa casa, para que fique limpa, arrumada e com aquele cheiro delicioso vindo da panela na hora  das refeições. Para minha sorte, minha falta de habilidades domésticas e meu berço de ouro não me impediram de ter uma relação de amor com as mulheres que exerceram esse papel de anjo.

E nem o coronavírus, que destruiu a economia mundial e botou em xeque a política e os sistemas de saúde de todo o planeta, pode corroer o valor dessa relação! Ela me salvou, de longe, sem eu pedir, mandando áudios contando onde estão as coisas no meu próprio congelador, e o que fazer com elas para não passar fome em casa, com a dispensa cheia. E ela, que vive dizendo que eu sou muito sabida porque vez ou outra respondo alguma pergunta sobre INSS, direitos ou coisas assim, me deixa maravilhada com o seu saber! E, para minha felicidade e dos meus filhos, mesmo à distância, cuida de nós, como eu sempre tento cuidar dela e da sua família, na medida do que posso. Então, vamos sobreviver à quarentena, cada uma na sua casa, segurando uma na mão da outra, como quando fiquei viúva, depois perdi o emprego e o filho dela foi preso, o pai adoeceu e morreu, e também quando a filha dela se formou em Administração, dia desses, sendo a primeira da família com diploma de curso superior. E, quem sabe quando a vida volte ao normal e ela retorne, a gente possa mostrar a casa inteira e bem cuidada a ela, para que tenha orgulho de nós e de tudo o que aprendemos. É algo a cultivar como meta nessa maratona que só começou.





terça-feira, 27 de junho de 2017

MAIS REALIDADE: O SEMPRE NO NUNCA


Foto: Ultra Alliens na Avenida Paulista, por Davi Buarim. Junho de 2017.

Parece um rio, mas é uma avenida. A Paulista em dia de feriado – fechada para o trânsito dos carros, inundada de gente circulando – pulsa de vida, de diversidade, de histórias. Pisar nesse chão pela primeira vez – a passeio, depois da morte do meu marido, na companhia dos nossos filhos – fez correr em mim um rio de sentimentos, memórias e elaborações. A Paulicéia Desvairada que, depois da minha Brasília, certamente é a cidade mais importante na minha história.

Nela, dei os primeiros voos autônomos da vida adulta, depois de entrar na universidade e, mais tarde, consolidei projetos pessoais e profissionais importantes. São Paulo é densa, complexa, nada óbvia. Exige entrega sem preconceito para se deixar conhecer. Mas, quando a gente deixa, surpreende com sua beleza misturada, contida e derramada. As contradições da grana, a força da rua e do concreto e uma efervescência insuspeita.

Logo na chegada ao hotel, recebemos como presente de boas-vindas uma lata de cerveja comemorativa da parada do orgulho gay, que aconteceu no domingo seguinte à nossa visita. Entramos no táxi, logo depois, e o motorista mais velho mostra um entendimento completamente diverso do mesmo evento: “Domingo a Paulista vai estar fechada só para os gays, viu?”. Quase pergunto se será preciso apresentar uma carteirinha de identificação para passear por lá, mas desisto e só tomo nota.

Por algum motivo, não consigo chamar a Consolação, para onde quero ir, de outro nome que não Constelação. Mais uma das minhas confusões habituais, motivo de riso e diversão na nossa família, e que continua. Alguns passos na Paulista, a partir da Consolação, e tropeçamos num grupo de “Ultra Alliens” invadindo a área com um som temático, que tem como característica principal o vocalista produzindo com as mãos interferências numa antena de rádio, amplificadas pelo sistema de som, e acompanhado de outros músicos vestidos de macacão branco tipo NASA e máscaras de extraterrestre. Um pouco adiante, Elvis Presley evangélico, de afinação duvidosa, cantando em inglês, estranhamente um repertório nada Elvis, e abençoando os passantes, chamando para fotos os cadeirantes ou pessoas com alguma deficiência.

Mais alguns passos, e chegamos ao forró, com direito ao mano de camisa do Coringão dançando com as minas, em passos um pouco heterodoxos.  Um homem com um boneco de marionete que toca um piano, em miniatura, chama a atenção do meu filho mais novo. Mais cliques.

Continuando a caminhada, ouvimos gritos e imagino uma manifestação “Fora Temer!”. Nada. Chegamos mais perto para descobrir o motivo do frisson. Pergunta daqui e dali e eram duas celebridades do YouTube, dando sopa, no meio da Paulista e fazendo a gravação de um programa de televisão a cabo. O rosto do meu filho se ilumina.  “O Ted e o Muca Muriçoca estão aí”, grita animado. E eu, na mesma. É a idade! Ele queria ver os dois de perto, tirar foto. Um homem dá a dica: “Você é pequeno, entra por baixo do pessoal, quando chegar no segurança, chora que eles te pegam!” Ele pensou e até tentou se enfiar no meio, mas já não é tão pequeno assim. Uma mulher vê e se oferece para ajudar a colocá-lo nas costas da minha irmã, a mais alta e forte do nosso grupo. Somos três mulheres – eu, minha filha mais velha e a desconhecida – fazendo um guindaste para ele subir no cangote da tia. Todas juntas, em trabalho de equipe, nos aproximamos do círculo, apoiando as costas dele por trás, para evitar uma queda e tentar ajudar um pouco a minha irmã que está na base com todo o peso. Deu certo! Registro feito. Saio chorando de rir pelo inusitado da cena e pelo colorido da interação com desconhecidos em meio à Paulista. Não tem preço.  

De noite, tem volta à cantina italiana onde pedi para executarem “Io que amo solo te” na nossa mesa, anos atrás, com direito a dedicatória ao meu amor, mais vermelho que pimentão e completamente avesso a esse tipo de exposição. Meu coração aperta de alegria por trazer a nossa duplinha ali, como tínhamos planejado tantas vezes, junto com saudade, tristeza e a consciência que o tempo traz de que ele não vem mesmo.  Estar ali, assim, em três dimensões temporais simultâneas – o passado, o hoje e o adiante – e só um coração, deve ter transformado minha expressão. “Pode chorar mãe, tudo bem”, dizem os dois “ourinhos” que ele me deixou, quase em coro, me autorizando a botar para fora o que me apertava o peito. E as lágrimas caíram.

Terá sido má ideia ir ali?! E agora? Como encontro o conforto neste lugar para conseguir jantar? Aí, entram os músicos, senhores de terno de ar muito grave, empunhando um violão, uma sanfona e um violino, e começam a tocar. O coração acelera e, ao mesmo tempo, acalma. Uma frase do livro “A Elegância do Ouriço” de Muriel Barbury, me vem à cabeça e vai acomodando as abóboras na carroça.
 
No livro, a menina perde uma grande amiga, tipo mãe, e ao escutar uma música (sempre ela!) sente algo que descreve como “um sempre no nunca”. Então é isso?! São Paulo, a estação da Luz, o mercadão, um sanduíche de mortadela, nossos filhos e tantos outros momentos adiante serão assim. O que não significa nenhum tipo de incapacidade e nem retira o meu direito de gozar da alegria e do prazer que também seguirão fazendo parte dessas experiências e desses lugares. Mas pede (ou será exige?) que eu ACEITE e não me ASSUSTE com os ritmos diferentes que podem agitar meu coração aqui e ali, onde ele vai sempre estar presente, sem nunca mais voltar.
  


terça-feira, 28 de março de 2017

ROBÔS

Foto: Marina Oliveira.

Meu filho mais novo adora tecnologia. Aos 11 anos, acompanha tudo o que acontece nesse campo via YouTube, assim como todos da sua geração, interessa-se até mesmo pelas grandes negociações, compras e vendas desse mercado, me atualizando sempre sobre as cifras de cada uma das movimentações milionárias. No carro, um dia, me contou que havia assistido à palestra de um dos grandes executivos do Google afirmando que, em 2049, a inteligência artificial irá superar a humana. Eu fiquei bem séria e perguntei: “Será mesmo verdade?”. “Claro, mãe, pode contar!”, respondeu sorrindo e emendou: “Você ficou triste?”. “Claro que fiquei! Como assim, quer dizer que os robôs vão dominar o mundo?!”....

GOSTOU?! #debaixodosipes

Em Brasília: à venda na Banca da Conceição, na superquadra 308 sul.

Livros por encomenda no BrasilMartins Fontes
Livros  e e-book disponíveis, para todo o mundo e também para o Brasil : Chiado Books