domingo, 19 de abril de 2020

DIÁRIO DE QUARENTENA - UM MÊS COMPLETO

Ensaios na quarentena com Bernardo Bernardes pelo Skype.

Isolar-se consigo mesmo traz reflexões e reações diferentes em cada um de nós. Conversando com uma amiga que tem ensaiado escrever sobre esse tempo e desistido várias vezes, por algum razão inexplicável, percebi, a partir da observação feita por ela, o quanto universalidade e particularidade se entrelaçam nesse período. A impotência com a pandemia e os complicadores que só os brasileiros precisam lidar de um cenário político bizarro são de todos nesses dias. Mas a variedade dos mergulhos de cada um, enquanto isso, é infinita e muito distinta. Depois de revelar sonhos por aqui, me permitirei ir um pouco além e deixar entrever outras viagens em curso aqui no meu barquinho de papel.

Em junho de 2016, fui demitida pela primeira vez na vida. Um baque a mais em cima do luto do meu falecido marido, que completava então 15 meses apenas. Formada em jornalismo, exerci praticamente todas as funções tradicionais da profissão: repórter, editora e assessora de imprensa, para citar as principais, mas, doze anos antes, havia tomado um "desvio" desejado, e facilitado pelo "destino" de alguma forma, e me tornado gestora de projetos no governo na área de Direitos Humanos. Dali, pulei para organismos internacionais, onde enveredei pela coordenação de pesquisa em temas diversos e segui em navegações novamente no governo sobre assuntos variados, desde formação e qualificação profissional até inovação, nanotecnologia, setor aeroespacial, engenharia e muito mais.

Aprendi essa nova área como quase tudo na vida: metendo a cara, sem vergonha mesmo, e prestando muita atenção nas coisas, tentando estabelecer um sentido lógico (nem sempre possível) às informações e mobilizando minhas habilidades coringa de comunicação, alguma criatividade e muito senso prático para realizar as tarefas recebidas dentro do prazo. Mas, ao ser devolvida ao mar dos desempregados, cada vez maior desde aquele algo distante 2016, não tinha certificação dessa nova "profissão" e não queria e nem tinha como voltar à trajetória interrompida em 2004 como jornalista tradicional.

Engraçado como, só agora, em isolamento, quase quatro anos depois, e cumprindo aviso prévio novamente, em outro emprego no qual estive pelos dois últimos anos e onde tive a oportunidade de estabilizar novamente minha vida, percebo a reinvenção pela qual passei. Em algum lugar de mim, havia um poço de não-talentos pelos quais tinha imensa atração e igual aversão, no sentido de medo: dar certo, dar errado, empatar, não dar em nada, me destruir. Sei lá. Compunham aqueles desejos ardentes mais duramente criticados e, por isso mesmo, incendiários, que guardamos num dos muitos baús do inconsciente, que se tornam conscientes aqui e ali, quase por encanto. E quem não tem nada a perder, como eu sentia finalmente não ter em 2016, resolvi me entregar aos meus fantasmas de dor, e de prazer também, por que não? Obviamente não sem MUITO medo e idas e vindas com relação ao acerto da decisão, muitos recuos, alguns avanços a passos suados. E, assim, me matriculei na Escola de Choro Raphael Rabelo como aluna de pandeiro.

E, nas batidas com som de bacia do meu pandeiro, que incomodava, desde a sua chegada pelo correio em 2013, ouvidos mais sensíveis que os meus, descobri talentos e aprendi a usá-los com uma facilidade e resultados surpreendentes para mim mesma. Eles me levaram a redescobrir minha vocação original para a comunicação social - sim, essa área maltratada no mercado de trabalho, assolada por uma crise estrutural absurda, mas tão essencial ao ser humano e tão minha desde sempre. E, nesse caldo, emergiu uma verve empreendedora e artística (SIM!!), que libertou minha voz de escritora com a publicação do meu primeiro livro de crônicas, contos, mais um romance, a produção cultural de um projeto musical e, mais recentemente, a união de tudo o que mais agrada meu coração atualmente - história, música, palavra, som e afeto entrelaçados no meu primeiro livro infantil "A Lua Curiosa e o Planalto Central", em fase de produção como audiolivro. O post de hoje são flashes dos ensaios da locução realizados toda segunda-feira, pelo skype, com meu amigo Bernardo Bernardes. E olha que descobri ter muito jeito para a coisa, modéstia à parte.

E o pandeiro, que sempre foi um dos maiores desafios de aprendizado da minha vida, finalmente parece ter se ajeitado na minha mão!! Acreditam? Justo quando entrei em ensino à distância e achei que iria naufragar, veio uma autonomia no instrumento até então suada e intermitente, que talvez fosse muito mais fruto de uma insegurança e uma eterna briga interna minha com meu amor por esse instrumento tão simples e difícil do que qualquer outra coisa. Revelações que só isolar-se consigo mesma trazem.

domingo, 12 de abril de 2020

DIÁRIO DE QUARENTENA - 24 DIAS DEPOIS

                           Dançando na quarentena com a filha.

Entre noites de sonhos intensos e dias indiferenciados, existo pela metade. Faz mais de uma semana que vejo, enquanto durmo, todos os dias, variações de uma mesma história. Meu falecido marido volta, depois de ter fingido a própria morte e me deixado por anos a fio, enquanto vivia aventuras de todo tipo. Não bastasse isso, está a cada sonho me traindo com uma mulher diferente, uma delas, uma integrante da geração millenium que, ao me ver, tem a coragem de criticar o meu decote como uma atitude machista da minha parte. Pode? Em algum momento, pelo menos consigo o direito a uma DR, mas com ele preso dentro de um televisor e eu debruçada do lado de fora, gritando como uma doida no meio da rua deserta. O sorriso pilantra, um dos mais bonitos e charmosos dele, tenho de admitir, sempre ali, perto e longe, me atordoando e atiçando uma raiva e impotência indescritíveis.

Isso fez com que acordasse, quase sempre, dominada por essa sensação vinda de um enredo impossível, mas tão real e repetido pelo meu inconsciente que deve trazer alguma mensagem a qual teimo em tentar decifrar.  Nessa existência paralela, pela metade, joguei a toalha na cozinha. Não só porque sou péssima, mas porque ODEIO serviço de casa, todo ele, sem exceção, mas principalmente alimentar os outros.  Até bolo de caixa de mercado sai errado na minha mão. Acredite. Tentei na semana que passou e foi desastroso. Não tinha ideia do quanto tenho aversão às tarefas domésticas, basicamente porque, como uma Patricinha do Lago Sul, nunca tinha sido obrigada a realizá-las diariamente como agora. Mas vamos tocando os três com lanches e uns quitutes aqui e ali mandados pela irmã e sobrinha, mãos de fada na cozinha e um ifood cá e outro acolá, que ninguém é de ferro. Pelo menos, ganhar peso na quarentena não tem sido uma questão. Numa das danças da última semana, mais concentrada nos quadris, acordei toda dolorida, quase sem poder pisar no chão e tive de dar um tempo na diversão que ilustra o post de hoje. Mais uma frustração dessa quarta semana de isolamento.

Fiz 45 anos em janeiro e devo confessar uma certa angústia com a aproximação daquele ponto de virada na trajetória de todo ser humano. Não é o declínio, ainda, mas aqueles metros finais antes do pico da montanha russa e depois, naturalmente, iniciar a descida. Claro que essa descendente pode ser lenta, controlada e prolongada ao máximo, tipo o achatamento da curva do vírus, no qual estamos todos trabalhando. Mas dá trabalho à beça e tem vários sacrifícios, como percebemos a essa altura. A questão que me pega hoje é o desperdício desse tempo coladinho no cume da subida de uma vida inteira. Como se o isolamento me roubasse um naco da existência particularmente valioso.

E o que será que o meu falecido marido tem a ver com tudo isso? Não saberia dizer e talvez não haja nenhum sentido objetivo e articulado nesses sonhos. Mas chutaria a existência de uma vontade de reencontrar, na vida real, um objeto de amor, correspondido, vejam bem. Algo que demorou muito a aflorar nesses mais de cinco anos em que estou viúva. Identificar novamente essa chama em mim e não poder agir sobre ela só torna esse tempo meio vivido mais revoltante e alongado para mim. Mas, diante das alternativas dadas por malucos de plantão, em seus planos mirabolantes para driblar o vírus que botou o mundo inteiro em xeque, respiro e penso que, antes uma pausa que um ponto final. E, assim, sigo riscando os dias do calendário desse 2020 que sinto não ter começado de fato.



quarta-feira, 8 de abril de 2020

DIÁRIO DE QUARENTENA - 19 DIAS DEPOIS

                  Primeira produção de tricô da quarentena.

A crônica dos dias retirados do mundo pode ser tão intensa quanto a de tempos normais. Pelo menos no meu cantinho do mundo, desfilaram alguns acontecimentos curiosos. Começo pelo mundo animal. Morar na beira de um vale numa área de preservação ambiental, como diz meu arquiteto, um dos primeiros permacultores do Brasil, é lutar com a natureza pela ocupação efetiva do espaço diariamente. Em outras palavras, a ausência humana em qualquer parte da casa ou do terreno se denuncia pela presença mais acentuada (e nem sempre desejada) de algum outro ser vivo - planta, animal, inseto e por aí vai. O que faz sentido para a sustentabilidade da vida. Ninguém merece mais do que consegue usar de verdade. Primeiro sinal de presença humana reduzida nessa quarentena? Menos barulho e mais passarinhos, fato relatado antes, aliás, neste diário.

Depois vieram os quatis, cada vez mais próximos da minha varanda, devorando bananas e mamões em broto e me constrangendo durante minha prática de Ioga. Tive medo de fechar os olhos no relaxamento ou numa postura de equilíbrio e, ao abrir, dar de cara com um desses 15 quatis de todos os tamanhos, roçando meu nariz. Tentei mandá-los passar como se faz com cachorros, mas sendo bem mais selvagens, me olharam sem entender. O jeito foi sacar minha arma mais mortífera: o pandeiro! Toquei com força, largando a mão nas platinelas de zinco, bastante altas, e funcionou. O som ecoou no vale e eles logo fugiram antevendo algo terrível, anunciado por aquele barulho estranho.

Poucos dias depois, percebo uma gata preta, de olhos verdes, recém-nascida, aboletada entre as rodas do meu carro na garagem, miando sem parar. "Saudades dos meus cachorros encapetados!", pensei. No tempo em que ainda viviam por aqui, ajudavam bastante a manter distantes quatis sem cerimônia e gatos, os quais não estão entre meus animais favoritos, confesso. Mas eles fugiram para mata, há quase um ano, e nunca mais os encontrei. Então o jeito foi esperar para ver se a filhote ia embora. Final do dia e ela miando sem alívio, de fome, claro. Mas alimentá-la seria fatal pois sinalizaria uma eventual vontade de adotá-la, o que não estava nos meus planos de jeito algum. Mas o choro semelhante ao dos bebês me corta e divide o coração.

A sobrinha amante dos animais venceu nos grupos de família e me convenceu a dar atum para a danada. Minha filha mais velha executou a missão de abrir a lata e deixá-la entre os carros e esperar para ver se ela aparecia para comer.  No dia seguinte, arrependimento! Ela fechou o cerco à casa, e com agilidade e nenhuma vergonha, estava quase ao mesmo tempo junto a todas as muitas portas, janelas, seteiras e até no telhado de grama da casa, querendo ficar e se insinuando para mim. Tranquei tudo e mantive minha posição. Mas, aqui dentro, me dei conta da minha ocupação da área cada vez mais questionada, enquanto o miado constante me enlouquecia. Toca a ligar para a polícia ambiental, entrar em grupos de whattsapp para doação de animais e torcer, teclando e postando freneticamente, por um final feliz.

Logo uma mensagem no privado: "é fêmea?!". E eu: "não faço a mais vaga ideia!", embora o jeito seguro com que foi ganhando território e se impondo na área me fizesse pensar que era. Mas como se sabe se um gato é macho ou fêmea? E, pior, como alguém que tem pavor desse animal faz para descobrir um segredo assim? Só a sobrinha na causa. Veio e confirmou que SIM era uma fêmea, como eu pensava. E a levou para o seu novo lar, em Taguatinga, onde tem a companhia de outras três gatinhas como ela. Quarentena também pode trazer finais felizes!

domingo, 5 de abril de 2020

DIÁRIO DE QUARENTENA - PASSADOS 17 DIAS DE ISOLAMENTO

                                                     Tricô de espera.

Viagem longa pede tempo para se acostumar com as ondas. Dezessete dias transcorridos a bordo deste barco, sem previsão de desembarque, começo a perceber o tremendo esforço psíquico em curso de elaboração inconsciente da realidade. Um lado se mantém firme na repetição de um mantra sobre o caráter passageiro e transitório dessa situação. Basta chegar o dia em que o vírus esteja controlado e tudo voltará ao normal. Mas, cada dia mais, essa voz se parece com uma negação,  resultado de um pânico crescente em mim.  Uma paralisia diante da percepção mais e mais forte de que não haverá retorno possível ao antes, com tudo de bom e ruim que isso significa.

Sair de casa para fazer compras ou passar no banco ou farmácia, com máscara de pano com filtro de papel no meio e ligas de borracha nas orelhas, tornando a respiração difícil em dias quentes, deixar os sapatos usados na porta ao voltar e depois correr para pia para se lavar com água e sabão torna-se um programa cada vez menos atraente como alternativa ao isolamento modorrento em casa. Uma lesão no meu quadril direito, anterior ao vírus, da qual estou me recuperando ainda, me impede de sair para caminhadas na rua, limitando minhas saídas ao rol listado acima. Exercícios para mim, hoje, são: na varanda do meu quarto, ioga, duas vezes na semana e, no quarto da minha filha, em frente à televisão, nos outros três dias, dança aeróbica acompanhando uma playlist do YouTube. Sábado, faxina geral na casa, papinho no hangout com a família no fim da tarde e um zoom com amigas de uma vida, quando conseguimos nos juntar (sempre uma alegria!).

Falo com minha sogra-mãe que completa 90 anos em julho e está em isolamento sozinha com um cachorrinho vira-lata em sua casa em Araraquara. A filha médica, no front em Ribeirão Preto, não pode visitá-la pelo risco ao qual está exposta. A empregada vai todos os dias movida pelo afeto de filha que tem por ela, para cuidar da casa, fazer comida e um pouco de companhia. "Pensar que já tive a casa tão cheia e agora me vejo assim completamente sozinha", diz chorando ao telefone e logo se refaz e muda o rumo da prosa, como é da sua natureza, desde a perda dos dois filhos e, mais recentemente, do marido. "Eu sei que tá chegando minha hora de ir, mas com esse vírus não, né?" e ri gostoso. Percebo uma diferença importante entre o meu isolamento e o dela. Minha sogra não pensa mais no futuro, sabe bem o dela e nada pode mudá-lo, mesmo que todos desejemos que ele dure o máximo possível. Eu tenho no mínimo (espero) metade da minha vida pela frente, dois filhos ainda dependentes de mim para criar e um mar de incerteza a encarar sobre nossas vidas depois do isolamento.

E esse ponto de interrogação cada vez maior no horizonte vai semeando uma angústia em mim. Lendo um livro lindo da escritora Isabel Allende chamado "Longa Pétala de Mar", acabo me identificando com os refugiados da Guerra Civil Espanhola fugitivos de Franco e depois da II Guerra Mundial na Europa, sem saber que mundo encontrariam no desembarque no fim do mundo, que era o Chile, e se haveria possibilidade de retorno, um dia, à terra natal. E só a esperança na reconstrução de sonhos pode alimentar a alma humana nessas encruzilhadas da história na qual fomos surpreendidos (ou, eu pelo menos, fui) - tão diferente das anteriores, mais claramente delimitadas e mais concretas em seus termos.

Então a onda de hoje, domingo, em meio ao isolamento, consiste em terminar o dia, fazendo um tricô de espera e escrevendo, sempre. Buscando a esperança em cada pequeno sinal de solidariedade, de afeto, de janelas se abrindo em oportunidades ou inovações para nossa humanidade, como pão essencial nessa viagem.


terça-feira, 31 de março de 2020

DIÁRIO DE QUARENTENA - DIAS 11 E 12

Distopia ou utopia? Fico pensando qual seria a proposta do vírus-ducha para a humanidade hoje. Como alguém pode confundir antônimos, você me pergunta. Não pode mesmo. Trata-se da nossa encruzilhada atual, da qual participo. O nosso modo de vida está em xeque, independente de como cada um de nós enfrente o isolamento e todas as suas consequências. Iguais como humanos sim, mas tão desiguais como cidadãos. E isso escancara nossos piores pecados como sociedade global, como economia, como cultura, como seres teoricamente éticos.

Viver sem opção de sair, como os encarcerados e hoje os isolados, traz grande opressão e privações de toda ordem à subjetividade. Mas saber que se conta com um leito de UTI em hospital privado, ou um salário garantido no final do mês para pagar as contas, muda a radicalidade dessa distopia atual. Como tenho na minha imaginação uma grande amiga e companheira de jornada, sobretudo nos piores momentos, e a esperança arraigada em meu coração, prefiro pensar em tudo isso como um convite à construção da utopia, enfim! Uma que se molde exclusivamente pela experiência concreta do bem-estar do humano e não por uma ideologia ou teoria qualquer, num movimento contrário a "utopias" anteriores, sem nos preocuparmos nem por um segundo qual será o ornitorrinco teórico-ideológico nascido a partir dessa empreitada.

Nesta utopia, para a qual escuto o vírus - tão fofinho em sua aparência, e tão nefasto em seus efeitos (como muita gente por aí) - nos chamando, há algumas opções bem interessantes, a meu ver. Primeiro com relação ao consumo. Deu. Pessoas não são objetos e está na hora de ter só o realmente necessário para viver com dignidade, e com a possibilidade de sonhos individuais. Isso não alimenta o crescimento econômico baseado na produção cada vez mais intensa para abastecimento de uma demanda cada vez mais desconectada do uso real dos produtos? Paciência. Para quem sente arrepios de pensar nisso que proponho como utopia, pense na distopia permanente de ter sua vida controlada pelo resto dos seus dias pelo vírus da vez,  fugindo da devastação do planeta, e ditando se você pode ou não sair de casa, encontrar seus amigos ou abraçar seus pais e avós.

Segundo: um mundo onde o valor de todo trabalho está no que ele proporciona aos seres humanos e não na riqueza monetária que gera. Então, empregadas domésticas, músicos, cientistas, economistas, artistas de todo tipo, jardineiros, médicos, todo mundo tem um valor ENORME, cada um no seu quadrado de saber, nenhum deles mais ou menos importante, todos necessários ao pleno bem-estar da humanidade. Tem vontade de chamar essa proposta do corona de distopia? Então, pensa num mundo onde pessoas sem água potável, sem saneamento básico, sem esgoto e sem comida saiam pelas ruas desesperadas, em busca de alívio e encontrem nada. Muitos morrerão nessa empreitada, claro. Mas não todos. E os sobreviventes dessa horda da distopia de hoje vão invadir a sua utopia de ontem e te mostrar que não existe possibilidade do mundo antes do corona sobreviver intacto. Neste dia 12 de quarentena, proponho um brinde à nova utopia trazida pelo vírus-ducha a quem tenha coragem de construí-la!

domingo, 29 de março de 2020

DIÁRIO DE QUARENTENA - DIAS 9 E 10

                                          Luvas de faxina

Nada me impressiona mais que o tempo e suas revelações. No baralho mítico de tarô, que costumo jogar, a carta do "eremita", associada em outros decks com o número 9 (dia de ontem do diário), é Cronos. Pai de Zeus e de todos os mais poderosos deuses do Olimpo. Existia antes de tudo e, embora tenha sido morto pelos filhos, depois de tê-los engolido um a um ao nascer, para não perder a supremacia do poder, segue como a presença mais persistente no nosso universo humano. Talvez por ser uma criação e necessidade exclusivamente nossa, de marcar a passagem sobre a terra e assim termos certeza de termos existido. Dez dias completos de isolamento social ou quarentena me trouxeram a visão completa do meu ponto fraco desnudada pelo tempo: a maternidade.

Disfarçada sob a capa de desespero - real, diga-se de passagem - pela minha falta de talento na cozinha, estava, na verdade, o meu maior desafio desde o nascimento dos meus filhotes e antes até, quando assumi essa função com relação às minhas irmãs mais novas, após a morte da minha mãe: prover TODAS as necessidades dessas criaturas. E o tempo, na sua infinita capacidade de desgastar até esvair os véus e disfarces humanos, me mostrou o começo, novamente. A cobra que morde o próprio rabo, outro símbolo recorrente do tempo. Quando, independente de coronavírus, luto, desemprego, e tudo mais ao redor, existia uma menina, depois uma mulher, incapaz de aceitar limites sobre sua capacidade de produzir o bem-estar no outro e no grupo familiar.

Esse ser primitivo da minha maternidade não suporta tudo o que sente como fracasso, muito embora, em grande parte das vezes não o seja, e a racionalidade de hoje consegue perceber a diferença, felizmente. O treino brutal de receber do além um bebê indefeso, sem fala e sem capacidade de prover suas próprias necessidades, tornou esse mecanismo primitivo em mim numa força sobrenatural. Mas o tempo treina, nos torna excelentes em algo e aí inverte a brincadeira, completamente. Porque ele é círculo e não linha reta, lembram? E, desde há algum tempo - com a emancipação completa das minhas irmãs em mulheres adultas, e a morte do meu amor e todas as suas consequências, e depois ou junto com isso tudo, o desenvolvimento dos meus filhos em adolescentes e, no caso da mais velha, adulta -, tenho lutado com a impotência diante de um número cada vez maior de necessidades vitais da parte deles, as quais não posso e jamais poderei prover. Essas que são mais complexas do que comer, dormir, dar banho, vestir, aquecer etc. Aquelas que fazem parte do processo de individuação deles, suas batalhas, escolhas, dores e delícias de serem quem são, como diria Caetano.

E conviver, todo dia, com o fato de que não consigo alimentar esses filhotes como eu gostaria, que teoricamente faz parte do grupo de necessidades às quais eu DEVERIA ser capaz de prover, me trouxe uma opressora e avassaladora sensação de fracasso. E isso, para ser muito sincera, tem sido o maior dreno da minha energia e a maior fonte de ansiedade nesse período. Algo sem qualquer conexão com o vírus-ducha.

Mas hoje acordei consciente e disposta a me entregar ao treino de deixar cada um deles fazer suas escolhas e lidarem com elas, inclusive à mesa, dentro do contexto atual de restrição de outras comidas melhor preparadas. E detalhe do nível de dificuldade da tarefa: NÃO SOFRER COM ISSO. Porque não tem drama, ao contrário, tem processo de crescimento e amadurecimento para todo mundo, eles e eu, inclusive. Morrer de fome com dispensa cheia não tem jeito. E, resguardada essa condição, me parece a melhor maneira de aliviar essa pressão no meu peito, que pode tornar o isolamento com quem eu mais amo no mundo em algo opressor para além do que é, por si só, perder a liberdade de ir e vir, sem culpa.

PS - Aos que me seguem nestes registros, quero comunicar outra decisão soprada pelo tempo em meu ouvido. Nem tudo o que se escreve num diário serve para publicação e, muitas vezes, precisa tempo (sempre ele!) para depurar o que se quer comunicar. Portanto, vou escrevendo aqui, a partir de hoje (dia 10), na medida em que tiver algo maduro o suficiente para compartilhar. Aqui também, no blogue, trata-se de maratona, não corrida de tiro.

sexta-feira, 27 de março de 2020

DIÁRIO DE QUARENTENA - DIA 8





                            Visitante do dia, comendo banana.

No mar de dias indistintos, navegamos ondas radicais dentro de nós. Acordei cedo, seguindo a lição da última segunda-feira, na qual fui atropelada por levantar tarde demais, tomei café e a neblina nas árvores do vale tornou mais aguda essa melancolia no ar. Fui para a varanda praticar uma ioga leve, pois estava ainda dolorida do exercício de cardio, enviado por uma amiga num dos grupos, e que resolvi fazer há dois dias e ainda não me recuperei. Tem uma tensão acumulada na região dos ombros e pescoço, quase permanente. Mas a gente maneja com algum alongamento e muita respiração. Medito e logo ouço um roçar de folhas particular. Sinal de visita. O quati da foto deste post e sua família numerosa - presente, mas não clicada - fazem a festa com o cacho de bananeira ainda em broto no quintal, bem perto do parapeito da minha varanda. Tanta paz na natureza e tão pouca em mim.

Talvez hoje seja o dia mais difícil de escrever, pela sua característica cinza, a cor sem lado definido e, apesar disso, desbotada e fria, ao menos para mim. Fiz um almoço bastante gostoso, pronto no horário, mas de pouco ibope. Algo muito decepcionante, confesso, que me fez perceber que melhorar o humor da turma, nesses dias, está muito além de uma questão de talento culinário. Trata-se de mais uma impotência a lidar, entre tantas. A navegação é individual, e os meninos precisam encarar dentro deles, como eu em mim, as muitas adaptações necessárias (quase todas indesejadas) e frustrações pequenas e grandes, em tempos de vida do avesso, sem data para voltar ao normal. Então, recolho a vela porque não tem vento mesmo, como e sigo o dia, tentando apenas chegar ao final dele. Por hoje, só por hoje, tem que bastar.