sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

GOTEIRA



Foto: Marina Oliveira.
Texto produzido em 2015.

Dia desses fui acordada no meio da madrugada por uma goteira bem no meio da minha testa. Os quatro ou cinco pingos escorreram do teto do meu quarto, em cima do qual tenho um telhado de grama. Trata-se de um capricho, quase luxo, de inestimável valor simbólico na minha vida. Em 2003, quando começamos a construir a nossa casa, decidimos arriscar e apostar em algo alternativo com paredes de taipa, experiência com técnicas de adobe e dois telhados vivos. Tudo isso em cima de um terreno de inclinações variadas, na beira de um vale, num condomínio irregular! Acho que poucos casais escolheriam administrar tantas variáveis arquitetônicas junto com a consolidação de uma família formada com dois filhos prontos, vindos de relacionamentos anteriores, um com doze anos e outra com cinco, cheques especiais estourados, juros brasileiros e a impossibilidade de pegar financiamento habitacional pela falta de uma escritura do lote.

Mas assim fizemos e, passados mais de doze anos daquela decisão e muitas goteiras que se movem de um ponto a outro da casa, dependendo da direção da chuva, tenho a sensação de que nada nesse mundo nos representa tanto quanto essa casa caprichosa ou problemática, na definição de nossa filha mais velha, quase dotada de uma vida própria. Ali nasceu nosso caçula, que adora passar o dia de pijama dentro dela, no computador. Em torno da casa, rebrotaram mais de 20 árvores nativas do cerrado num terreno onde só havia capão na primeira vez em que meu marido botou os pés nele, quando ainda namorávamos. E, sobre esse caprichoso telhado, vimos muitas estrelas, luas, revoadas de passarinho, queima de fogos de Ano Novo, tomamos vinho, contamos piada, jogamos futebol e vôlei com nossos filhos. Nele toco, junto com uma grande amiga e nosso professor o pandeiro, o tamborim e o tantã quase toda semana. Quando meu amor ainda andava nesse mundo, aconteceram ali as suas poucas exibições de violão para um público muito seleto. Nesse tempo todo, já nos refrescamos muito no chuveirão que instalamos ali e observamos o vale recobrar a vida, depois de ter sido desmatado pelo processo de construção das casas....

GOSTOU?! #debaixodosipes

Em Brasília: à venda na Banca da Conceição, na superquadra 308 sul.

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