quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

MARINA MENINA



Texto produzido em 2014.

Todos sabem que Marina é uma boa menina, embora tal não pareça pois é um pouquinho travessa.” A minha história começou nesta frase tirada do livro “Os Sonhos de Marina”, um dos favoritos da minha mãe quando pequena, de onde veio o meu nome, abençoado também pelo meu pai graças ao seu amor pela música “Marina Morena”, de Dorival Caymmi. Esse negócio de ser uma boa menina antes mesmo de nascer transferiu toneladas de peso e responsabilidade para os meus ombros, muito antes de eu aprender a falar o meu nome.

Não sei o que veio antes: minha índole de salvadora do mundo e principalmente das almas ou essa profecia trazida pelo poema do qual tiraram meu nome. O que sei é que, aos 39 anos, depois de muito esforço pessoal para me entender melhor e viver mais plenamente, me pego em conflito quase permanente com essa Marina menina. Na maioria das vezes, ela começa a me atentar o juízo no momento em que escolho atender um desejo, por menor que seja. Mas, nos últimos tempos, tenho arriscado ir além, sentir e seguir vontades um pouco mais ambiciosas, como comprar um carro novo ou viajar com minhas amigas para o aniversário de 40 anos de uma das meninas da turma, com um final de semana adolescente, sem marido e sem crianças, só curtindo o presente que ousei me dar.

O sofrimento dessa Marina menina, ao perceber que a adulta que sou hoje escuta os seus desejos e cultiva o prazer na vida, é indescritível e, por vezes, transborda para o presente e recobre tudo de culpa, e medo de um castigo futuro. Lá, na famosa terceira margem do rio, de Guimarães Rosa, nas profundezas, onde os rios são tranquilos e escuros como os sofrimentos dos homens, tentamos nos entender. No começo, eu queria vencê-la – ou convencê-la – do meu ponto de vista, quase como se fôssemos duas ocupando o mesmo corpo. Uma loucura!

Depois de muito caminhar e visitar a terceira margem do rio, cheguei à conclusão de que essa menina precisa ser acolhida, colocada no colo, como faço com os meus filhos. Talvez assim possamos nos dar as mãos e seguir a vida, sem tantos conflitos internos. A frase de uma amiga, a quem admiro além de qualquer palavra pela sua capacidade de se entregar à vida e ao prazer, tem sido um mantra nesse processo: “Paciência com as nossas dores e fé de que seremos capazes de superá-las.”

Desde a semana passada, véspera da minha viagem adolescente para curtir os quarentinha da minha amiga na Paraíba, venho sendo assombrada pelo medo ancestral da Marina menina. Essa parte antiga de mim fala de uma ameaça iminente de perder todos os que amo e tudo o que conquistei ao lado deles por correr atrás do meu desejo de viver, mesmo que tardiamente, um pouco da despreocupação adolescente, da qual abri mão para cuidar do meu pai e das minhas irmãs depois da morte da minha mãe, e mesmo muito antes, quando ela ainda era viva.

A viagem foi ótima, cansativa porque curta e intensa em interação com pessoas muito queridas, mas na hora de voltar para casa, na esteira da exaustão física, recomeçou o embate interno, o conflito entre os meus medos mais primários e a Marina adulta, que finalmente está assumindo o comando da situação.

De repente, parecia que o mundo à minha volta tinha ficado sombrio e cheio de tragédias e dificuldades, e uma voz cruel, lá no fundo, me culpava por cada uma dessas coisas ruins, por ter desistido de salvar as pessoas e o mundo, porque finalmente comecei a aceitar a IMPOTÊNCIA. No último e mais pesado round desse embate, encontrei meu filho mais novo e percebi que ele havia sentido a minha ausência de três noites e dois dias – um final de semana somente! – e isso dilacerou meu coração. Por uma brecha funda e escura, veio uma sensação antiquíssima de abandono. Nessa hora, quase dei razão à Marina menina e, por um triz, não me arrependi dessa mania de querer abrir o peito e viver plenamente o momento presente, confiando que tenho instrumentos para lidar com os movimentos da vida.

Mas, num lampejo final de lucidez adulta, consegui dizer a ela: “Será que você não entende que essa viagem foi por você? Porque você sempre quis estar completamente livre para poder curtir, assim como os seus amigos faziam na adolescência, sem se preocupar com a mãe, com as irmãs, com os avós ou com a prima, e depois com os filhos?! Demorei 39 anos para conseguir te dar esse presente! Será que você pode simplesmente aceitá-lo, por favor? Será que nós podemos somente receber o amor dos nossos amores, que ficaram em Brasília e cuidaram um do outro e de si próprios, e descansarmos neste ninho que nós construímos? É de GRAÇA, não tem uma dívida atrelada a esse afeto, ele é nosso de VERDADE, mas mesmo o que é de graça precisa ser ACEITO, e chegou o tempo de fazermos isso!”.

Neste momento, lá do fundo da minha memória afetiva, veio a voz do Nelson Gonçalves cantando “Marina Morena”, mais especificamente o trecho em que ele exercita o auge do seu estilo dramático “eu já desculpei tantas coisas, você não arranjava outra igual, desculpe Marina morena, mas eu estou de mal, de mal com você, de mal com vocêêê”. Era um ritual repetido pelo meu pai, toda vez que brigávamos ou ele não gostava de alguma coisa que eu tinha feito, sobretudo depois da morte da minha mãe, amanhecer o dia com essa música a toda, no alto falante do som da minha casa.

Ainda, num último ato de força e lucidez de adulta, lembrei a mim mesma, gentilmente: “Ninguém está de mal de você, já passamos dessa fase. Pode descansar tranquila e saber que mesmo esse pai da sua memória ama você, independentemente de qualquer coisa, mesmo que tenhamos demorado tanto tempo para descobrir o que teria sido o óbvio”. Afinal, todo amor é de graça, mesmo que algumas pessoas escondam esse segredo a sete chaves, por medo de perder o afeto que tanto precisam.

E, por fim: “A impotência não é ruim e nem é nossa somente, mas faz parte da vida e nos dá o direito de errar e acertar como todo mundo. Pode deixar para trás esse medo de crescer e virar mulher. Ser adulta é ÓTIMO porque podemos escolher por nós mesmas! E, desde sempre, almejamos mais do que tudo viver a vida em paz e com LEVEZA e, enfim, esse tempo chegou, menina!”. Foi um conflito intenso, profundo, mas, de alguma maneira, definitivo também. Como diriam os pernambucanos: “Pense numa festa de 40 anos que mudou o mundo?!” Foi essa da minha amiga em João Pessoa.



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