segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

QUARENTINHA



Texto produzido em 2014.
Foto: Lucia Helena Carneiro.

Dia de fazer os benditos exames preventivos do câncer de mama: mamografia e ecografia mamária. Pura diversão! Para muitas mulheres, divisor de águas, porque marca a chegada dos famosos e, por vezes, temidos ENTA. Não no meu caso, que já estou acostumada a essa alegria desde os 36 anos, pois tive mãe que morreu de câncer, o que me coloca em categorias especiais de monitoramento preventivo.

Mas estar ali naquele lugar, de batinha de TNT, azul escuro, nua, naquele ar condicionado gelado, com uma pulseirinha de papel indicando o nome do exame que será realizado, sempre tem um impacto. Primeiro, vem a técnica de raio-x, achando que está causando empatia, ao repetir a cada nova rodada de imagens da pobre mama, espremida em todos os ângulos: “É, senhora, mulher sofre!”, seguido do obrigatório suspiro. Terrível essa cultura que faz de toda mulher uma sofredora só porque nasceu com útero e mama. Depois a médica: “Nossa, você é muito jovem! Posso perguntar qual a sua idade?” “Trinta e nove.” “Ah! Até este ano você podia escapar de um exame anual, mas, a partir dos 40, não dá mais.” Alegria completa!

Em seguida, vem o doutor da ecografia mostrando na imagem da televisão que a gordura já começa a ser mais abundante que o tecido mamário. “Tudo muito normal e esperado!”, completa, consolador. Dá vontade de mandar todo mundo tomar no olho do... E você ali, docilmente aguentando, porque, afinal de contas, em se tratando de doença, é melhor passar por isso do que ter câncer, né?

Meio amassada, depois de uma noite mal dormida, e, claro, depois de terminar os benditos exames, saio para a luz do sol e penso: “Deve ser uma pegadinha!” E começo a rir sozinha. Chegar aos ENTA pode ser MARAVILHOSO e LIBERTADOR, mas tem uma condição: ser capaz de aceitar certas fragilidades e mudanças do corpo e espírito, com bom humor. Não é à toa que Buda tem sempre aquele sorrisinho sacana! É neste ponto, justamente, que “a porca torce o rabo”, como se dizia no tempo da minha avó – mais uma expressão para o dicionário de gírias fora de moda que estou escrevendo em parceria com outra amiga, que sempre será mais velha do que eu, OBVIAMENTE, pois, para desespero dela, nasci no início de 1975 e ela no meio de 1974.

Depois de passar praticamente todos os meus trinta anos em terapia, Ioga, exercícios para meditar e domar o elefante da mente, aprendendo a fazer mosaico, jogar tarô e me aventurando no pandeiro e no tantã, gostaria de dizer, sem piscar: “Sim, eu aceito as imperfeições e sorrir naturalmente como Buda!” Mas, na real, confesso que ainda me custa um pouco. Bate um certo medo de abrir mão da onipotência da juventude e desistir de me esforçar para ser interessante e útil aos que me rodeiam para simplesmente ser o que for. Ainda me desgasta profundamente uma noite de sono perdida, mesmo que hoje eu saiba que é só isso, uma noite de insônia, e não o começo do fim ou de um ciclo de desespero e loucura, como eu costumava sentir antes.

No próximo final de semana, vou viajar para João Pessoa com minhas amiguinhas, a turminha das quarentonas, para festejar os quarentinha de uma de uma de nós. Fui convidada no final do ano passado e demorei uns dois meses para me decidir se iria ou não, ainda mais sozinha, sem marido e sem crianças. No final, fechei os olhos e senti lá no fundo um DESEJO genuíno de estar presente naquele momento de celebração. Aí me permiti resgatar uns pontos de fidelidade e acertar os detalhes para viajar. Preparei um presente com minhas próprias mãos para lembrar como conheci essa amiga – tínhamos 13 anos, dançávamos no corpo de baile da Tia Ofélia, em Brasília; ela, a estrela do corpo de baile, e eu, a esforçada e falante do grupo.

Acho que um pouco da minha insônia de ontem foi ver chegar o momento da viagem e da realização do meu DESEJO e temer que não seja extraordinário, que não seja perfeito, que eu não corresponda às expectativas, que precise ir para o hotel descansar porque afinal não sou mais aquela pessoa sem fronteiras, aquele tanque de guerra que elas todas conheceram e foram também, em alguma medida.

Mas aí vem o lado MARAVILHOSO e LIBERTADOR de chegar aos quarenta: conhecer os meus limites e respeitá-los e, principalmente, abrir mão de controlar os encontros ou mesmo de analisar o seu significado. Como eu descobri recentemente, um encontro é sempre só isso: pessoas interagindo no PRESENTE, da forma mais ordinária possível, sentindo coisas boas ou ruins, a depender de como rola a interação naquele momento específico.

O patrimônio de afeto, entretanto, tecido ao longo da vida entre amigas, em alguns momentos mais próximas, em outros mais afastadas, sustenta toda essa teia de amor misteriosa, concreta e absolutamente fluída da vida. Em suma, quero chegar aos quarenta confiando em mim mesma, sabendo que não preciso explicar quem sou ou ter minhas decisões aprovadas por quem quer que seja para ser amada. Eu simplesmente mereço esse amor e posso desfrutar dele, a força mais poderosa do universo que salvou o lendário Harry Potter ainda bebê de morrer pelas mãos do Lord das Trevas, finalmente, em paz.



GOSTOU?! #debaixodosipes

Lançamento em Brasília
Data: 29/09/2018 (Sábado)
Local: Bar Tiborna, CLN 403, Bloco B
Horário: 17H

Livros por encomenda no BrasilMartins FontesLivraria CulturaSaraiva
Livros  e e-book disponíveis, para todo o mundo e também para o Brasil : Chiado Books

3 comentários:

  1. Nunca imaginei que nossa viagem para comemorar os Enta de Lulu tinha gerado tanta reflexão, babe! Amei o texto. E a foto!!!!

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  2. Pois é...tudo gera muita reflexão em algumas pessoas (kkkkk!!). Tem hora que até cansa. Mas que bom que você gostou! Espero que as demais do grupo das quarentinhas também apreciem.

    A foto valorizou a beleza particular de cada uma. Parabéns para a fotógrafa!

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  3. Lindo!! Também adorei você compartilhar as suas reflexões de um momento tão especial para nós todas! Vamos nos proporcionar mais momentos destes! Beijo!

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